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Jack sugou o último sopro de fumaça que seu cigarro fornecia, atirando-o pelos arredores; os dedos marcados pela nicotina, a respiração acelerada intensificando-se quando ele atravessou as portas de vidro da delegacia.

Às três e quinze da manhã de sábado, o silêncio era inexistente entre os policiais de Nova Orleans. Conversas calorosas ocorriam pelos corredores, o cheiro de café forte imperava pelo recinto, e o detetive ficou absorto no instante em que deparou-se com a movimentação inesperada que ocorria ali.

No entanto, assim que os olhos de todos aqueles homens encontraram Jack Johnson, o silêncio roubou todo o som que suas vozes eloquentes proclamavam. Eles passaram a observá-lo, olhos esbugalhados cristalizados nos passos que Jack fazia, nos punhos cerrados que o homem tinha, nas roupas amarrotadas que ele usava, buscando a todo custo alguma resposta para as centenas de perguntas trazidas pelo que a sala de interrogatório abrigava naquele instante.

Um Tom McDonald com as mãos manchadas de sangue.

Jack, conduzido pelo cansaço e o estresse, fitou os companheiros de trabalho com os glóbulos exalando impaciência. Cada passo efetuado por ele fazia os policiais à sua volta engolirem a seco, assistindo-o cruzar a porta para o escritório de Randall Walters, completamente imóveis. 

— Que merda aconteceu?

A voz pesada e direta anunciou a chegada do detetive ao aposento. Oz encontrava-se sentado à frente de Randall, as olheiras ainda mais negras, o cansaço cada vez mais evidente.

O delegado, porém, encontrava-se esfregando o queixo, analisando um papel já razoavelmente amassado, o qual Jack identificou como um boletim de ocorrência.

Duas xícaras de café pela metade dispunham-se entre os dois, que sequer olhavam-se quando o investigador os avistou. A atmosfera soava pesada, exaustiva, como se nenhuma palavra houvesse sido dita há bastante tempo.

— Ele confessou — Lance fora quem se manifestou. — Ele confessou ter matado Lance Fitzgerald.

— Como ele chegou a esse ponto, Walters? — Jack insistiu em seu questionamento, a ausência de informações lhe aniquilando internamente.— Essa parte eu peguei pelo telefone.

Tom McDonald é um doente mental! — Oz se exaltou; o maxilar trincado, os dedos apertados na palma de sua mão, a ponto de suas unhas ralas quase lhe penetrarem na pele. — Ele atacou o empregado, Jack! Que tipo de monstro é capaz de uma atrocidade como essa? O pobre homem nos telefonou do hospital!

— Foi um acidente... — Randall suavizou, esfregando a testa para não ter de encontrar o olhar furioso do policial à sua frente. — Ele se arrependeu...

Ah, grande merda! Isso não traz a visão do senhor Moriarty de volta! As lágrimas de crocodilo desse estúpido não vão tirá-lo dessa, Walters. Isso eu lhe garanto!

O choque da porta pesada no batente, entretanto, silenciou Oz, fazendo-o voltar sua atenção ao policial impaciente que lhe observava irritado do outro lado da sala.

  Dá para alguém, nesta merda, me dizer o que diabos aconteceu? —  Jack vociferou. —  Agora!

Oz não esboçou qualquer reação ao grito raivoso do parceiro. Ele apenas o mirou com frieza, refletindo no que diria.

— Com prazer —  decidiu, por fim.

Nova Orleans, 1935.

Quatro horas antes.

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