Não aguentava mais andar de carro, naquele dia interminável. Ele e Oz sobreviviam à base de biscoitos salgados, comprados no primeiro mercado que encontraram, e um elevado percentual de cafeína no sangue. Caso contrário, estariam bocejando a cada murmúrio dito.

Portanto, depois de ponderar por breves segundos, os detetives chegaram a um consenso de que aquele seria o último interrogatório que fariam, por ora. Precisavam ir para casa, organizar as informações e ter uma noite razoável de sono, o que geralmente não passava de menos de cinco horas de descanso.

Entretanto, era inegável o fato de que a visitada da vez era... interessante. Seria curioso descobrir um pouco mais sobre Cassandra Pavlova e sua magia peculiar, Jack pensava. Imaginava como seria sua residência. Seria nobre, como a de Tom? Feminina como a de Marjorie? Ou tão excêntrica quanto ela própria? Não possuía uma ideia exata, apenas a curiosidade inacabável.

— Já sabe que teremos que passar no Randall ainda hoje? — perguntou Oz, entrando no Felicity. — Para já ir adiantando as coisas do mandato do senhor McDonald...

— Merda — Jack bufou, revirando os olhos só de lembrar do chefe insuportável. — Ele vai criar um estardalhaço imenso por causa disso. Talvez nem dê a droga do papel só para não incomodar os... — vasculhou sua mente em busca da melhor definição para explicar a influência grotesca tida pelo prefeito na promoção de Randall Waters a delegado. No caso, procurava por qualquer palavra que não fosse ofensiva, mas todas que seu cérebro lhe propunha não eram muito eficazes nesse quesito. — Amigos dele.

— Jack, ele não vai compactuar com um assassino só para...

— Você realmente acha isso, Ozzy? Realmente? — Jack nunca engolira o fato de Randall ter se tornado seu superior. Nunca. Afinal, o sujeito era um incompetente, resolvera casos insignificantes ao longo de toda a carreira. Era covarde, ainda por cima. Não tinha explicação legal para aquilo. Quer dizer, troca de favores ainda permanecia como uma opção.

— É... — Oz suspirou, sem conseguir relaxar o corpo tenso com o possível, e injusto, não que poderia vir a receber do delegado. — Acho que você está certo.

— Eu sempre estou — Jack anunciou com seu tradicional orgulho, arrancando risadas anasaladas de Oz Ward, para suavizar o clima severo que se instaurou no cubículo metálico. — Enfim... — resolvera dar um basta naquele assunto, compreendendo a necessidade de resolver a questão do mandato. Jack conseguiria de um jeito ou de outro, Randall Walters não seria um empecilho. — Aqui é até... bonito, não é?

Referia-se ao Felicity. O condomínio estava longe de ser o mais nobre da cidade. As casas eram modestas e comuns; nada espalhafatoso, nenhum jardim típico de ser fotografado. Os investigadores prosseguiram, recebendo olhares desconfiados dos moradores dali, uns regando o gramado, outros conversando tranquilamente na varanda da frente.

Todos vivendo como se absolutamente nada de interessante houvesse acontecido.

De todo modo, o lugar não era feio, nem nada parecido. Era simpático, inclusive. O ambiente apresentava um clima sereno, pacífico, confortável. E, definitivamente, qualquer uma daquelas residências medianas aparentava ter um custo superior ao que uma cartomante circense poderia pagar.

— É — Oz balbuciou, concentrado em identificar os números mal pintados para localizar o tal vinte e dois. — Vinte... Acho que é aquela ali, Jack.

— Nossa— as retinas expandiram-se tanto que uma ardência começou a se esparramar pelos olhos arregalados do detetive, abismados com o que encontraram.

Não, não era uma casa feminina ou refinada. Era o oposto de tudo aquilo que seus devaneios lhe sugeriram, na realidade. Ainda assim, havia uma definição perfeita para aquela junção mal feita de telhas velhas e grama seca: fantasmagórico.

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