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Cassandra sentia sua mão escorregadia, depois dos longos minutos que passara com os dedos unidos aos de Charlize. Chuviscos tamborilavam sobre seu cabelo; um vento frio carregando as madeixas para trás, mas ela não se movia. Ignorava a temperatura baixa que lhe fazia tremer, embora a grossa camada de veludo de seu vestido preto lhe protegesse um pouco.

Ela mantinha-se parada, hesitando em respirar pesadamente, ou efetuar qualquer movimento brusco que fosse assustar a órfã Fitzgerald. Cassandra, ao examinar a lápide de mármore tomada por flores brancas, escutava os sussurros baixos que Charlize buscava a todo custo omitir. Os cachos dourados e o chapéu negro ofuscavam o rosto dela; uma lágrima delicada reluzindo em seu queixo, revelando o que a moça tanto queria esconder.

A cartomante compreendia a amiga. As duas se conheciam há tantos anos, que o silêncio entre elas nunca surgia sem significado. Portanto, Cass apertou a mão de Charlize com mais força, buscando transmitir seus últimos resquícios de calor para ela; a herdeira do Guadolomon passou a quase penetrá-las com as unhas, revelando o desespero que Cassandra sabia reinar dentro dela.

O enterro havia acabado há alguns minutos, o suficiente para o céu escurecer e os membros do circo dispersarem pelo cemitério; Jack e Oz encontravam-se próximos à saída. Um cigarro aceso iluminava a porção de grama sob os pés do detetive; o orvalho molhando a ponta de seus sapatos.

— Seis e meia — Oz comentou, espreitando seu relógio de bolso. — O Mr. Spade Saloon abre às sete... e se demorarmos muito...

— Eu sei, eu sei. Se demorarmos muito encherá com senhores de elite nojentos, eu sei... — Se livrou do cigarro, pisoteando-o, apreensivo.

— E eu sei que você quer falar com ela — Oz suspirou. — Mas o caso ainda não acabou, você sabe disso também, não é? Você sabe que ainda temos um sociopata, um doente que fez a atrocidade que nos trouxe aqui...

Uma das atrocidades — o investigador corrigiu. — O responsável pela outra nós já capturamos, Oz.

— É — Oz resmungou. — E para que não haja uma terceira, é melhor encontrarmos o que falta.

Jack prendeu a fumaça em sua boca, os dentes fincados ao seu lábio inferior misturando-a com a brisa de fim de tarde. Até que, lentamente, deixou que ela fervesse dentro dele, liberando-a vagarosamente, acalmando-se o bastante para compreender o que o amigo dizia.

Olhou uma última vez para Cassandra, ainda imersa no momento com Charlize. Suspirou, estalando os dedos e perdendo os restos de seu cigarro pelas folhas secas amontoadas ao seu redor. Escutou seus instintos, relembrando a si mesmo de que ele e a cartomante teriam tempo suficiente para conversar quando tudo aquilo terminasse.

Embora hesitante, o detetive submeteu-se ao longo suspiro prestes a eclodir se seus lábios, incorporando-se em seu trabalho, aceitando que, por alguns instantes, Cassandra Pavlova estaria melhor sem sua companhia.

— É melhor que este inferninho nos traga a cabeça do prefeito, Oz — articulou, enfiando as mãos geladas nos bolsos do casaco e começando a caminhar para deixar o cemitério.

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A Bourbon Street, no início daquela noite, estava movimentada. Carros desfilavam pelas ruas de pedra, luzes em tons de laranja chamuscavam os passantes. E Jack e Oz, após estacionarem o Bentley a alguns quarteirões de distância dali, serpenteavam entre os homens e mulheres de meia idade com exímio cuidado, farejando o cheiro forte de bebida que suas roupas emanavam; escutando, ao fundo, as conversas fervorosas nos bares lotados. 

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