O clima estava ameno. Esse foi um dos poucos pensamentos positivos de Jack ao ser forçado a ficar no banco de trás, para que Charlize pudesse guiá-los como "co-piloto". O homem aproveitou para apoiar o seu braço na porta e dar longas e profundas tragadas em seu cigarro, enquanto aproveitava os poucos raios solares que volta e meia saíam das nuvens. As árvores mantinham-se com a aparência típica do outono; alaranjadas e deixando folhas espalhadas pelo asfalto.

Não deveria passar de meio dia. O tumulto começara a dar as caras em Nova Orleans, para a infelicidade do detetive. As placas de "aberto" viam-se posicionadas nas vitrines de vidro, acompanhadas de donas de casa portando sacos de papelão recheados de mantimentos, ou simplesmente itens supérfluos.

                No entanto, eles não permaneceram muito tempo dirigindo pela paisagem urbana. De fato, logo adentraram a um condomínio deveras confuso para os não familiarizados. Um corredor de árvores funcionou como a passagem, casas parecidas demais umas com as outras estavam numeradas, com carros estacionados na calçada. Todas possuíam uma temática vitoriana, tijolos vermelhos, com quintais dispostos na parte de trás. Eram coladas uma na outra, tornando ainda mais complicado de se localizar por ali.

            — Estamos chegando. Vire aqui — a garota avisou, apontando para o lado esquerdo. Tratava-se de uma esquina com uma caixa de correios e uma casa rosada, com persianas azuis e janelas de moldura branca. Era luxuosa e imponente, na verdade, todas as moradias da avenida Henry Clay apresentavam essas características. — É essa — ela comunicou, fazendo Oz diminuir a velocidade gradativamente, parando o carro à frente de um quintal com a grama seca.

                Oz saltou primeiro, abrindo a porta para Charlize por educação.A garota tomou os devidos cuidados para encaixar sua saia estrategicamente, evitando visões incômodas. Jack, por outro lado, levantou-se com um desconforto aparente, grunhindo antes de colocar os pés para fora do veículo.

            — Finalmente — celebrou, esticando a coluna enquanto caminhava atrás dos outros dois.

            — Para de drama. Demorou menos de quinze minutos —Oz contrariou as dores do detetive, com sobrancelhas contorcidas em descrença à sua suposta angústia.

            — Não foi você que ficou espremido num banco de trás, sem espaço para sequer abrir as pernas!

            — Podem entrar, cavalheiros — Charlize interrompeu a discussão infantil, subindo os três degraus antes da porta, e a abrindo rapidamente.

                Uma troca de resmungos entre dois estranhos, antes de uma da tarde, não iria ajudar a tornar o seu dia menos detestável.

                Jack e Oz não perderam tempo. Seguiram a moça prontamente, insinuando-se em uma sala de estar com uma decoração exagerada. Tapetes de veludo vinho encontravam-se logo na entrada, de frente a uma escada de carvalho. Cortinas douradas, que arrastavam-se sobre o piso, preenchiam cada uma das janelas do aposento.

                E, ao centro, um lustre chamativo de revestimento prata, abrigava diversas lâmpadas apagadas. Um arco largo, na parede do lado direito, fornecia visão a uma sala de estar majestosa, com três sofás posicionados ao redor de uma mesa de centro de vidro, abrigando um vaso de rosas vermelhas em cima.

                Todas as paredes, por sinal, tinham papéis de parede escuros, tornando o ambiente mais intenso do que o comum.

                Como se fosse uma manifestação explícita de Marjorie Montgomery, seu drama em cada olhar marcado pela luxúria escondida, seus pés retorcidos no palco e sua vaidade tão nítida para a plateia.

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