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Os paetês em violeta do terno do mágico permaneciam cintilantes embora não houvesse nada para iluminá-los além do brilho lunar. Jack vislumbrava as nuances em degradê, subindo pelo tronco decorado por uma gravata de cetim, logo enxergando as íris de avelã, tão cravadas nele. Era como se o homem o estudasse profundamente, analisando detalhe a detalhe da cena que presenciava.

    Ele estava com a boca levemente aberta; os dentes podres pendurados em sua gengiva. A barba desfeita atenuava a aura desleixada que o homem transmitia, junto às rugas desenhadas ao redor de seus olhos, e as olheiras que anunciavam as inúmeras noites mal dormidas que ele provavelmente tivera.

    — Boa noite, Zephir — Jack manifestou-se, enfim. — Prazer em conhecê-lo. Sou o detetive que terá o prazer de interrogá-lo neste exato momento.

    Hesitante, o homem cambaleou para trás. Suas pernas tortas movendo-o porcamente, enquanto ele buscava uma frase em sua cabeça para rebater o policial.

    — B-boa noit-e — elaborou com dificuldade, retirando o Fedora para cumprimentá-lo.

    — Onde o senhor esteve? — indagou Cassandra, o tom ríspido e o olhar cruel fixado nele.

    A mulher caminhou em direção ao sujeito; os braços cruzados, de forma autoritária.

    — O Lance morreu, Zephir — decretou, com frieza. — O senhor soube disso? A Charlize, sua afilhada, está devastada.

    Neste instante, Jack identificou os dentes de metal que tremeluziram quando o mágico escancarou a própria boca, perplexo. Um grunhido aflito ecoou pela noite, e as sobrancelhas franziram-se sobre os glóbulos assustados, que perderam-se nos traços de Cassandra Pavlova.

    Jack optou por manter-se em silêncio, atento ao que ele faria a seguir.

    — C-omo? — embolava-se nas palavras, e o detetive logo percebeu o quão aflito o homem era naturalmente. Seu rosto revelava a quantidade de neurose que infestava sua mente, como se ele nunca obtivesse paz. Zephir aparentava viver em um eterno pesadelo.

— Ele morreu? M-mas...

— Pare de titubear, Zephir — Cassandra continuou, firme. — O senhor sabia que ele estava desaparecido, não sabia?

    — A Charlize... — tentou justificar-se, mas a cartomante ergueu a palma da mão para interrompê-lo, dando um passo à frente.

— Ela lhe fez um telefonema, não foi? Ela lhe contou sobre a Marjorie e o Lance. E o senhor optou por não fazer nada —  enunciou; a irritação marcada por sua voz. —  O senhor retornou duas semanas depois. E sequer nos telefonou.

    — O Lorenzo, ele...

Cassandra pisou com força no chão; a saia  de veludo esvoaçando-se ao redor de sua sapatilha gasta.

    — Ele não era o melhor amigo do homem que desapareceu, ou o padrinho que ele escolheu para a filha dele, Zephir. Essa é a diferença — decretou, secamente. — Agora, o senhor trata-se da única família que a Charlie tem.

Uma lágrima sutil desceu pelo maxilar de Zephir; seus traços imóveis para tentar controlá-la, os dentes afiados e podres rangendo uns contra os outros, contendo os grunhidos que ele parecia desesperado para declamar.

    — Eu não aguentei voltar antes — admitiu, com um suspiro. — Era difícil demais.

Cassandra respirou fundo, a raiva borbulhando por suas veias.

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