Charlize Fitzgerald fitava às próprias sapatilhas, em uma timidez peculiar para alguém com a capacidade de interromper qualquer assunto, sem nenhuma parcimônia.

    As gêmeas Wright já haviam deixado o ambiente, em meio a cochichos jogados ao vento e comentários ácidos, deixando os três sozinhos.

    Não que alguém fosse reclamar disso.

    — Meu pai desapareceu desde a morte dela, detetive — Charlize articulou, coçava as próprias palmas, nervosa, com a respiração pesada. Jack conseguia discernir o desespero latente no semblante da garota, mais pálida do que o habitual. — Mas ele não a matou, tenho certeza!

    — Certo... tem algum lugar por aqui em que possamos conversar com mais – olhou para os arredores, procurando por algum passante, sem êxito. — Tranquilidade?

    — Sim, tem a tenda do circo, podemos ficar por lá – a jovem confirmou, levantando-se abruptamente. — Vamos, é só alguns metros mais à frente.

    Jack e Oz olharam um para o outro, como se pudessem se comunicar por telepatia. E, claramente, ambos haviam tido as mesmas constatações:

    -Assassinato planejado, ódio como principal razão.

    * Não era necessariamente um fã insano, fato importante a ressaltar.

    -Filha acobertando o pai, um potencial suspeito.

    -Desaparecimento inusitado, obviamente.

    Os dois amigos não sabiam ao certo a intensidade da participação de Charlize no crime. Talvez ela fosse inocente, talvez tivesse auxiliado o pai culpado em sua fuga. Filhas amorosas são capazes de qualquer coisa, não é? Jack sabia que a menina escondia algo, algo ruim. A frequência esquisita de seus passos, tortos e apressados, a insistência em colocar os fios dourados atrás da orelha, sempre que precisava falar com ele. Tudo apontava para tal, não era o seu pessimismo desenfreado que falava, dessa vez.

    Percorreram um caminho de pedras, que formavam um bosque delicado, no fim do recinto. A herdeira Fitzgerald alegou que aquilo funcionava somente como um atalho, visto que a entrada principal do circo situava-se atrás do parque, a qual logo foi vista pelos investigadores. Era uma tenda colorida por tons de amarelo e vermelho, com um arco largo fixo na parte da frente., com a palavra "Guadolomon" escrita em uma placa amarela e brilhante, presa ao centro.

    Duas outras tendas, menores, viam-se estrategicamente posicionadas ao lado da principal: uma a esquerda, a outra na direita. Uma gaiola, conectada a um trailer, estava a alguns passos de distância da localidade. Dois felinos jaziam adormecidos, tranquilamente, sendo tratados pelos poucos passantes como algo rotineiro.

    No entanto, a parte mais esquisita observada pelos homens, foi um aviso particular, em uma tábua de madeira. Ela mantinha-se pendurada na última árvore antes do circo, com o rosto de um macaco circense raivoso desenhado:

    "Caminho sem volta."

    Mas, é óbvio que o anúncio foi tido simplesmente como uma brincadeira, de gosto duvidoso.

    Caso contrário, não seria possível solucionar este crime, ou que Jack vislumbrasse as criaturas estranhas, sentadas e espalhadas por toda a grama seca da região.

    Uma mulher específica foi a que mais lhe chamou a atenção. Ela permanecia ajoelhada, próxima a uma das tendas menores. Algumas cartas viam-se espalhadas à sua frente, ao mesmo tempo em que a moça analisava uma delas, concentrada.

    Seus cabelos eram cheios e ondulados e cobriam grande parte de seu rosto. A garota dispunha de roupas não muito comuns para a década em que viviam. Referia-se a um vestido longo e roxo, com mangas de morcego compridas, que permaneciam arrastadas na grama, mesmo com seus braços erguidos. Não parecia sequer perceber o mundo à sua volta, presa nos pedaços retangulares de papel coloridos, que a envolviam em uma atmosfera quase sobrenatural.

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