Charlize grunhia cada vez que Jack se aproximava, com aqueles olhos azuis insanos por mais descobertas, insanos para novas perguntas que ela não queria responder. Oz a levou até o camarim, e ela, sabendo muito bem qual era o assunto, optou por não questioná-lo tanto, permaneceu com sua postura rígida, dotada de resmungos variados e uma raiva sutil.

— Então era isso o que tanto tentou esconder... — Jack comentou, aproximando -se da menina que contorcia suas sobrancelhas em desgosto. — Eu só quero que a senhorita me diga por quê.

    Hesitou, primeiramente. Abriu os lábios para começar sua longa e terrível resposta, sentindo o ar frio inspirado gelar sua saliva, o suor escorrer devagar por sua face catatônica. Vislumbrava as barras de ferro envolverem-na em uma jaula invisível, salientando o fato de que não havia mais escapatória, o momento abominável enfim chegara.

    O semblante sombrio preencheu sua expressão e, com frieza, visou ao detetive. Era como se imagens de seu pai algemado e julgado, em um tribunal cinzento e severo, permeassem o seu cérebro, sem que tivesse controle. Arrastou suas unhas roídas pela pele descoberta, arranhando-a com leveza, colorindo-a com uma coloração avermelhada de pânico. Lance trancafiado, amedrontado, sozinho... Não, isso não podia acontecer.

    O medo, a tristeza, a raiva, todos pareciam líquidos venenosos, que a enchiam devagar, provocando o transbordamento iminente; através da enxurrada de emoções intensas que sairiam por sua língua, indo diretamente ao rosto de Jack Johnson.

    — Porque eu sei muito bem o que pessoas como o senhor pensam de gente como o meu pai. Tive medo de que o colocassem como o assassino... — levou as duas mãos ao rosto, nervosa, sentindo o veneno espesso amargar em sua boca. — Ele não fez isso!

    Uma emoção peculiar transitou em Jack naquele momento. Fosse o que fosse, o homem segurou os dois braços da menina, sentindo o ardor da pele dela espalhar-se por suas mãos geladas. Vê-la ali, tão indefesa e amedrontada, trouxe à tona uma vaga lembrança que, por mais que ele tentasse esquecer, sempre conseguia retornar para assombrá-lo. Cabelos escuros, lábios rosados, ar sereno... Será que nunca iria superá-la?

    O homem, sutilmente, espremeu os olhos para ignorar as imagens que, por mais alegres que fossem, ele precisava esquecer. E, em seguida, a mirou atentamente:

    — Não acho que ele a tenha matado — ele respirou fundo. — Na realidade, penso que pode ter tido o mesmo destino que ela, Charlize. Mas eu preciso que a senhorita me diga tudo o que puder agora. Por ele. A melhor maneira que tem para ajudá-lo é nos contando tudo o que aconteceu — Jack permaneceu próximo a ela, sem quebrar o contato visual. — Temos que saber por onde começar, Charlize. E isso resultará na descoberta sobre o que aconteceu com o seu pai, nada indica que ele é culpado ainda, precisa confiar em nós...

    Charlize apertou os olhos, tentando diminuir a ardência resultante de tê-los mantido abertos por tanto tempo, arregalados, atentos aos movimentos de Jack, de Oz. A confiança nos dois parecia primordial, simples de ser feita, no entanto, permanecia relutante. Confiança. Algo tão óbvio, elementar, e ela ainda possuía suas várias ressalvas. Só que, desta vez, não tratava-se de suas manias, de seus problemas pessoais. Seu pai estava em jogo, a segurança dele. Precisava saber o que havia acontecido, aonde ele estaria, o que estaria fazendo... Se é que Lance continuava vivo. Se estivesse, precisava salvá-lo, e somente os dois homens teimosos à sua frente pareciam ser capazes de ajudá-la.

    Enfim, o encarou. Suas retinas brilhavam em um tom de vermelho, faiscando sob a luz do sol da tarde. Os olhos miúdos, em razão das lágrimas que a acometeram durante todo aquele dia horroroso.

Uma seriedade a possuiu por completo, de um modo estranho, sabia, pela primeira vez naquelas últimas horas, exatamente o que deveria fazer.

    Ignorou o ardor em seu estômago, o temor em suas veias, para dar início ao relato que tanto odiava relembrar:

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