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Cassandra Pavlova oscilava seu café com leite e caramelo, a colher de metal revirando os tons de bege da bebida para que o tempo passasse mais rápido. Às vezes, deixava que seus olhos investigassem, pela janela da cafeteria, os rostos atravessando rapidamente ao seu lado. Seu cansaço matinal sequer permitia que ela tivesse forças suficientes para erguer a xícara de porcelana à altura de seus lábios, preferindo farejar o aroma adocicado e analisar a fumaça suave que o líquido liberava.

Apoiava a cabeça no pulso, escutando de relance as conversas baixas vindas dos poucos clientes que frequentavam o Café Du Monde às sete da manhã de uma sexta-feira.

Mas, apesar de sonolenta, Cass sabia que não conseguiria dormir. As dúvidas a respeito do porquê Jack lhe chamara, após uma semana inteira sem nenhum contato, eram fortes demais para permitir que o sono lhe dominasse.

Decidiu, então, forçar seus dedos dormentes a lhe trazerem o latte, logo vendo a substância fazê-la arregalar os olhos, acordando-a parcialmente. A energia fora combustível para que ela relembrasse da última vez em que vira o detetive. Ele viera destruído ao seu encontro, implorando por perdão até o torpor do álcool vencê-lo por completo, fazendo-o desmaiar em seu sofá. Cassandra o deixou ali, acariciando os cabelos dourados e suados que não cansavam de cobrir o rosto dele.

Não pôde gritar e discutir com o homem, como prometera a si mesma que faria depois do modo que ele a tratou no hospital. O brilho melancólico que Jack lhe exibira fora intenso demais para que ela o tratasse com frieza. Adormeceu com a cabeça apoiada nos cantos de seu acolchoado de veludo, e as pernas esparramadas no chão frio.

Quando despertou, no instante em que somente o azul fraco prevalecia no céu, Jack já estava de pé. Ele via-se ocupado reunindo os cacos de vidro da garrafa que deixara cair, alguns de seus dedos riscados por sangue. O detetive decidira partir antes que ela enunciasse qualquer coisa, despedindo-se com duas frases que titubearam por sua mente durante todos os dias que se seguiram:

"Me espere, Cass. Prometo que voltarei para você."

— Bom-dia, feiticeira.

O timbre rouco lhe arrancou de suas lembranças, forçando-a a encontrá-lo parado à sua frente, sua mão esquerda escondendo algo dentro do sobretudo preto.

— O senhor está atrasado, detetive — ela resmungou, escondendo a apreensão que aumentava conforme ele retirava o embrulho fino para lhe entregar. Jack sorria, o azul em um tom vivaz, iluminando o cinza exausto que ela mesma carregava.

— Para você, senhorita Pavlova.

Cassandra levantou as sobrancelhas, as feições autoritárias desfazendo-se quando ela passou a examinar a rosa seca que seus dedos envolveram. As pétalas iam de um vinho escuro ao marrom queimado, os espinhos pontudos envolvidos por uma cobertura de papel seda branca.

— Geralmente, senhor Johnson, uma rosa viva é mais bem-vista quando se presenteia uma moça. — alfinetou.

Ele alargou o sorriso, o cabelo penteado e brilhante fazendo a mulher parar de fitá-lo nas orbes de oceano para que voltasse a sentir falta da textura macia dos fios dourados em sua pele. Relembrava-se de afundar seus dedos entre eles, ao examinar o homem adormecido, sua respiração pesada sendo o único som que lhe envolvia.

— Mas a senhorita não é uma moça — o detetive rebateu. — É uma feiticeira.

— Então significa que eu não mereço um presente decente, Jack? — Cassandra estreitou os lábios, entortando a cabeça para desafiá-lo.

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