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A lama fazia seus pés quase derraparem entre as árvores altas e os mosquitos infernais. Os insetos circulavam por sua cabeça, mordiscando sua pele infinitas vezes, mas Jack contentava-se em sacudir-se e apressar os passos, mantendo-se em silêncio perante à equipe que Randall havia designado para acompanhá-lo. O delegado também fora com ele, e prosseguia lamentando-se do calor, da grama alta e, principalmente, dos jacarés, que volta e meia erguiam os olhos, curiosos, observando todos aqueles homens vasculharem o terreno.

— Uma moradora da região encontrou o cadáver, como eu mencionei... — Randall revelou, apoiando-se nos troncos ao seu redor para se sustentar. — Amanhã seria o dia que examinariam esta área em busca do senhor Fitzgerald... Mas o destino resolveu agir antes.

— Supus que o senhor não havia tido tempo de enviar os policiais para cá — o detetive resmungou, estapeando o próprio rosto quando o zumbido irritante passou perto de seus ouvidos. — Qual é o nome dela?

— Lilia Yelchin.

— E é ali que essa senhora vive? — Jack perguntou; as sobrancelhas perfeitamente retorcidas no meio da testa enquanto ele distinguia a moradia à sua frente dos arbustos e cipós.

Garrafas de vidro enfeitavam os galhos ao redor da palafita minúscula, construída através de madeira podre. Ela sustentava-se sobre as águas esverdeadas do rio Pearl, exibindo-se sob os poucos raios de sol que conseguiam escapar pelo arvoredo. A luz refletia na grossa camada de musgo envolvendo o telhado, iluminando a varanda empoeirada e aos poucos revelando a figura que residia ali dentro.

Lilia descontraidamente balançava-se no balanço antigo, vendo os policiais irem ao seu encontro. Até que, em um solavanco, levantou-se de sua tranquilidade, erguendo a palma da mão esquerda.

— Parem — a mulher pediu; os cabelos em um castanho com grisalho, os olhos cobertos por óculos de sol. — Olhem para baixo.

E Jack a escutou, rapidamente reparando no choque que um de seus sapatos fez em uma superfície maciça, recaindo seu olhar para o cadáver com metade do rosto arrancado que jazia aos seus pés, parte de suas pernas escondida pelo rio.

A carne vermelha encontrava-se infestada por vermes amarelados, que enfiavam-se pelas frestas de tecido humano; com alguns fios oleosos e dourados cobrindo os fragmentos de couro cabeludo. Um olho permanecia ali, sem nenhum traço de pele para envolvê-lo. Era apenas um glóbulo ocular, cercado pelo que havia restado da derme marcada pela terra escura. O rosto terminava com a arcada dentária totalmente exposta; a parte da boca havia sido comida, e os dentes, quebrados, imundos de sangue, como se houvessem recebido um forte soco para destruí-los.

Jack ficou de joelhos sobre o gramado, ignorando a sujeira e a água fedorenta espalhando-se por suas calças de alfaiataria e tocando os ossos de uma das mãos do corpo ainda desconhecido. Havia coberto seu nariz com um lenço, protegendo-se do cheiro absurdamente forte. Alguns dedos não haviam sido arruinados; as falanges chocando-se com as camadas de pele remanescentes. O tronco, no entanto, estava massacrado, contando com o tórax em ossos ensanguentados e um tecido bege em frangalhos protegendo o braço esquerdo.

— Alguma das bestas o encontrou antes de mim. — Lilia proclamou, depois de descer as escadas de sua casa; um sotaque forte e bruto acobertando seu tom de voz. — Os senhores têm sorte de não ter sobrado só os ossos deste mister — coçou a garganta, corrigindo-se:— Digo, senhor.

— Senhora Yelchin, por acaso, notou algo de estranho...

— A senhora emigrou de que país, se me permite perguntar? — Jack freou a pergunta de Randall com um pigarro forte, levantando-se. O delegado o fitou com uma raiva contida, logo dando um passo para trás para fugir do fedor de putrefação que o cadáver emanava.

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