— O que aconteceu com você?— Oz comentou logo após ver o semblante pálido de Jack, que parecia ter tido parte de sua alma exaurida nos últimos minutos.

— Efeito colateral de uma conversa com Cassandra Pavlova— o detetive respondeu, tão baixo que jurou existir uma mínima chance do parceiro não escutá-lo direito. No entanto, os risos exagerados que ouvira a seguir, acompanhados das feições incrédulas que se espalhavam pelo rosto de Oz, não fizeram jus ao seu desejo.

— Então quer dizer que o ilustre senhor Johnson foi rejeitado? Oh, meu Deus! Isso merece a capa de um jornal, convenhamos.

— Ela é diferente... Ward. Para dizer o mínimo.

— Um diferente suspeito?

— Talvez. Mas não acho que seja nesse contexto — ele riu, encontrando certa graça em sua suposta tragédia. — Bom, fazia tempo desde que não me deparava com um bom enigma, não é?

—Creio que, neste momento, a sua preocupação deveria ser este caso, Jack — Oz disse, com um ar severo.

— E, é. Mas todo homem precisa de um hobby, Ozzy. Uns fazem sudoku, outros leem, só que eu prefiro decifrar as pessoas. Faz parte — Jack ascendera mais um cigarro, tentando se acalmar com a nicotina. — Pense que é como um treinamento.

— Ou perda de tempo — o amigo bufou, revirando os olhos — , outra ótima descrição.

— Veremos — decretou, com um sorriso ladino que conseguira silenciar os contra-ataques verbais do homem ao seu lado.

Os dois estavam conversando, sentados nos degraus que os levaria ao trailer. Observavam Charlize e as gêmeas assarem pedaços de carne sobre a fogueira, mal reparando na presença deles. Além disso, volta e meia, Jack insistia em levantar a cabeça sempre que um lampejo dos cabelos castanhos místicos resolvesse invadir sua visão, mas não encontrava a cartomante, em lugar algum.

Aquela tarde intensa havia terminado. O sol estava quase se pondo enfim, com tons de laranja pintando o céu, que cada vez mais ficava imerso na escuridão da noite. Portanto, os ventos frios do outono se intensificaram ainda mais, fazendo com que até o calorento investigador fosse forçado a abotoar seu casaco escuro em busca de aquecimento.

— Faça o que achar melhor, só tenha em mente que é o nosso emprego que está em jogo — Oz comentou, abanando as mãos para espantar o fumaceiro emanado pelo detetive. Sim, em plena expansão do tabaco, Oz Ward se recusava a injetar toda aquela fumaça em seu organismo. Três crises de tosse, que respingaram gotas de sangue em suas blusas de linho, lhe serviram como experiência suficiente.

— É só algum sádico que assassinou por ódio, sádicos são loucos e, loucos deixam pistas — Jack retrucou, antes de levar mais uma vez seu cigarro quase terminado aos lábios. — É questão de tempo até encontrarmos o erro que ele cometeu.

— Assim espero.

— E assim será — se levantou, jogando a guimba no gramado, que ainda soltava uma pequena corrente de fumaça, pigarreando em seguida. — Agora, vamos.

— Aonde? — perguntou Oz, confuso, observando-o espalmar suas calças para retirar a poeira recém obtida.

— Estamos em um circo, Ward. Temos uma infinidade de pessoas para investigar, correto?

— É... Começaremos por onde, chefinho? — o parceiro rebateu, em deboche. Oz achava hilário quando Jack resolvia ter seus surtos de prepotência, depois de ser contrariado por alguém. Talvez os dias tendo Cassandra Pavlova por perto fossem ser mais divertidos do que os filmes de comédia, que às vezes assistia no cinema.

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