Os investigadores foram vencidos pelo cansaço, e a preguiça de lidar com os manifestos inúteis do chefe. Logo, prometeram a si mesmos que iriam conversar com Walters na manhã seguinte, assim que falassem com o pessoal da perícia, para descobrir se havia alguma nova informação quanto ao corpo de Marjorie. Não era irresponsabilidade prorrogar a temida discussão por mais algumas horas, afinal, tinham certeza de que, mesmo se Tom decidisse fugir, devido à popularidade de sua família, não seria muito complicado localizá-lo.

Jack acordara com Oz passando o jornal do dia por debaixo da porta, lendo em voz alta a manchete, enquanto celebrava a ausência do modus-operandi do criminoso na matéria; ou seja, sem revelar a parte em que os olhos foram retirados.

O homem, em seguida, se espreguiçara na cama, forçando o seu corpo a levantar e encarar o dia insuportável que se instalara. A simples menção do rosto de Randall em seus pensamentos, lhe dava a vontade absurda de desistir daquela manhã, para jogar seu rosto no travesseiro e não ver nada além do escuro. Não era sua culpa, ora. O perfume de farmácia forte que poluía a sala inteira, a pele oleosa, o corpo suado... tudo naquele delegado o tornava desagradável, cada detalhe de sua aparência revelava a personalidade nojenta que ele abrigava por dentro.

Ignorou a preguiça espiritual, correndo para tomar uma ducha fria que o despertasse por inteiro, acordando todos os seus neurônios cansados de tanto raciocinar na noite anterior. Repassara as horas insanas em que conversara com os primeiros circenses, as reações de Charlize, das gêmeas, de Cassandra. Assim que as gotas ferozes de seu chuveiro tocaram em seu couro cabeludo levemente ferido, Jack lembrara-se dela. Do cinza fatal investigando-o da cabeça aos pés, do corpo quente enroscado ao seu durante aqueles poucos e intensos minutos. E um sorriso moldou-se em seus lábios secos, enquanto a água congelante começava a fazer efeito. Então, seu humor, antes em formato de nuvem negra, transformara-se em chuva, eliminando todo o mal estar matinal junto à água corrente.

- Bom dia, flor do dia - cumprimentou a Oz, sentando-se à frente dele na mesinha redonda da sala de jantar.

- Bom dia - respondeu o parceiro, secamente. - Espero que as horas que você perdeu no banho tenham servido para alguma coisa.

- Ah, elas serviram... - o detetive retrucou, sorrindo esperto. - Bastante.

-Oh! Mas que diabos, Jack - Oz disse, incrédulo, largando o garfo de prata em cima dos ovos mexidos. - Eu tô comendo!

- Não para isso - Jack franziu o cenho, com uma risada contida por culpa do exagero do amigo. - Tive uma ideia para o caso.

- Mesmo assim, você colocou essa imagem horrorosa na minha cabeça.

- Você sabe que é uma imagem bem melhor do que a que você vê todo dia quando se olha no espelho - Jack rebateu, começando a mastigar parte de suas panquecas ligeiramente frias, que Oz preparara para ele.

- Tenho minhas dúvidas... com o tanto que você fuma, deve estar tudo preto aí debaixo desse casaco - riu, anasalado, bebendo um gole de seu chá de framboesa. - Enfim, qual foi sua ideia?

- Bom, se as suspeitas da Charlize estiverem certas, o Lance está morto, quase certo - engolira parte do café puro, sentindo a amargura despertá-lo mais um pouco. - Então, nós precisamos do corpo. E eu tenho um palpite. Ele pode estar errado, mas é um palpite.

- Qual?

- O Guadolomon fica a alguns metros de distância do rio Pearl, achei que podíamos começar por lá. Já que vamos ver o Randall hoje... nada custa pedir que ele mande alguns homens para isso - terminou com a xícara azul, enquanto seus pensamentos começavam a projetar o cadáver arroxeado vagando pela correnteza escura, com as roupas encharcadas e os dedos enrugados. Respirou fundo, para não ver o rosto dele desenhado em sua panqueca, e voltou a saboreá-la.

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