Capítulo 11 - Linha de Fogo

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A vista embaçada não auxiliava Jack a aliviar a enxaqueca profunda que castigava seus miolos naquele momento. Os feixes de luz irrompiam em seu olhar, com o sol da manhã enfim anunciando a chegada de um novo dia, do qual o detetive já não estava gostando muito.

Piscou uma, duas, três vezes, mas os olhos cansados tardavam a impedi-lo de compreender o cenário à sua volta. Ainda havia a dor mordaz que lhe subia pelas vértebras e atrasava seu raciocínio lógico, tornando-o quase amordaçado àquele lugar desconhecido.

Sua cabeça doía. Muito. Como se um pedreiro a martelasse por horas a fio, com pancadas violentas, que o faziam perder a noção de equilíbrio e interrompiam qualquer tentativa de lembrar-se do dia anterior.

Nada vinha. Somente um líquido colorido, que ele lembrava de tê-lo considerado forte demais e as teorias que tentara desenvolver na delegacia. Fazia força para retomar os seus passos, até que, com muito esforço, veio à memória um único nome.

Cassandra.

Lembrou-se de segui-la por ruas escuras, de rostos estranhos, risadas exageradas, tonteira.

E só.

Então, com o anseio pela descoberta, grunhiu, buscando erguer seu crânio pesado para investigar o peso peculiar que sentia sobre seu peito. Começou avistando várias ondas escuras realçadas pela luz solar, aos poucos enxergando os traços inconfundíveis de sua cartomante.

Tratava-se de um par de olhos pungentes adormecidos, por trás de um festival de fios castanhos zoneados e olheiras profundas. No entanto, independente da cena caótica a garota das cartas ainda tinha a excêntrica capacidade de permanecer atraente, única.

— C-Cassandra? — proferiu com dificuldade, massageando a cintura que encontrava-se envolvida em seu braço. — Cassandra!

Ela apertou os olhos; as rugas faciais retorcidas e os lábios secos desesperados por umidade. Aflita, contraiu os dedos, agarrando a blusa amarrotada de Jack, finalmente conseguindo avistá-lo. Lentamente, a mente confusa situava-a no que ocorrera, e o medo retornava conforme a boca do policial abria-se para exclamar a primeira pergunta daquelas que ela definitivamente não estava interessada em responder.

— O que aconteceu? Por acaso nós... — Jack esboçou a hipótese mais óbvia, enquanto Cassandra levantava-se com pressa.

— Não — disse, seca, incapaz de encará-lo. — Isso não aconteceu.

— Que bom, eu não lembro de nada... — Jack suspirou, apoiando-se nos cotovelos para vê-la, forçando Cassandra a fitá-lo; o cenho franzido pelo alívio contido na voz dele. E o detetive, ao notar a incredulidade que provocara na moça, rapidamente concluiu sua linha de pensamento: — Eu nunca me perdoaria se esquecesse de uma noite inteira com você entregue a mim, Cass.

— Ah, sim — ela sussurrou, não conseguindo conter um sorriso delicado ao ouvir o que ele dissera.

— Nenhuma resposta safada? — Jack perguntou, irônico. — O que aconteceu ontem? Cass, eu fiz alguma coisa? — saltou em um impulso resultado de toda a adrenalina restante em seu corpo, ficando sentado a alguns centímetros da mulher. — Eu não lembro de nada!

E os ombros da cartomante encolheram-se completamente, enquanto ela virava o rosto em silêncio. Nenhuma palavra vinha. Cassandra mordeu o lábio inferior com violência;  a apreensão deixando-a em estado de alerta e a cena do homem desmaiado na noite passada eternizada em sua memória.

— Você está bem? Como se sente? — Cass perguntou, desviando sutilmente da pergunta ameaçadora. — Quer um café, ou algo assim?

— O que aconteceu ontem, Cassandra? — ele perguntou novamente, esfregando sua testa com os olhos comprimidos para suprimir mais uma martelada agressiva em seu cérebro. — Não me lembro de merda nenhuma. E minha cabeça está ardendo feito o inferno. É basicamente assim que eu me sinto.

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