Não se esqueçam de comentar e votar 🖤

Apesar da chuva, que devido à estação tornava-se constante, o detetive acendeu  seu cigarro, ignorando as gotas insuportáveis que escorriam por seu rosto. O céu estava nublado e sombrio, como se estivesse de acordo com os sentimentos de todos ali conduzindo o caixão escuro, cabisbaixos.

Sentia-se terrível. Não havia dormido desde o incidente, as lembranças não permitiam. Ainda sentia o líquido viscoso escorrendo por seus dedos, enquanto apertava com força o rasgo no peito de Oz. Os gemidos e gritos do amigo permaneciam reverberando em sua cabeça, como uma melodia grudenta e maldosa. Via todo o sangue esparramar-se sob seus joelhos, as mãos amassarem a camisa manchada de vermelho, em um desespero latente de estancar o ferimento.

E ouvia com precisão o último disparo, que havia pousado bem na testa do bandido causador daquela cena mórbida, determinando um fim para aquele massacre.

Mas horas seguintes não foram tranquilas para ele. Restaram apenas Jack, Matthew e as possíveis carcaças de Oz Ward e Evan Patterson naquele banho de sangue impregnado por criminosos. Os dois tiveram de se recompor às pressas, correndo ao telefone preso à parede do bar para implorar por socorro a Randall Walters.

E enquanto o chefe articulava as providências cabíveis, Jack não pôde abandonar o melhor amigo, permanecendo com a mão pesada apertada na de Oz, pedindo repetidas vezes para que ele não fechasse os olhos, que não se rendesse àquela morte cruel no meio de um bar, o qual ele jamais frequentaria por livre e espontânea vontade. Injustiça era a palavra que se desenrolava em seu subconsciente, o qual dividia-se entre pânico absoluto e uma tentativa falha de arrancar qualquer risada dos lábios já secos de seu eterno Ozzy, para mantê-lo acordado, vivo.

A culpa continuava tremenda, e aparecia para o detetive cada vez que ele piscava, lhe revelando aquele pesadelo macabro em todos os seus tons de horror. Entretanto, às três e meia da tarde, de uma sexta-feira, Jack nada fazia além de jogar guimbas na terra enlameada, evitando ao máximo ficar próximo do falecido, querendo afastar o momento fatídico pelo tempo que fosse possível.

— O Matthew vai se mudar para a Carolina do Norte, ele vai sair da polícia... — Randall comentou, ajeitando ao seu chapéu de modo que os malditos respingos parassem de lhe molhar a pele. — Eles eram muito próximos, acho.

   — Compreendo — Jack assentiu, sugando agressivamente a nicotina que tinha nos lábios, acalmando-se para não descontar seus conflitos internos no delegado.

Randall, então, olhou para cima, avistando a tensão cristalizada no rosto do policial, e pigarreou antes de proclamar a pergunta infame, que tanto fazia a si mesmo desde a tarde anterior:

— Como ele está? — disparou, e Jack se recusou a fitar a curiosidade irritante que Randall possivelmente estampava no rosto redondo, escondida por um falso tom de preocupação.

— Mal — respondeu com frieza, jogando o cigarro no chão e enfim encarando o chefe. — Cheio de pontos no peito, pálido... Em um estado de merda, para resumir.

— Nosso senhor Ward ficará bem  — Randall sorriu educado, disfarçando a inquietude que Jack lhe causavava,  e esfregando o braço dele gentilmente.

— É...  — o detetive levantou as sobrancelhas, balançando a cabeça em afirmação.  — Ele precisa ficar.

Haviam chegado à cova, Folhas caídas sobrevoavam a terra escura, sendo amassadas pelos sapatos de Jack, que arrastava os pés a poucos metros da futura lápide de Evan. Não conseguia dar outro passo. Deteve-se quando outra rajada de vento surgiu, escondendo as lamúrias da senhora Patterson. A idosa abraçava um buquê de rosas amassadas enquanto se desfazia em lágrimas, abraçada por Matthew.

Entre Tangos & TragédiasLeia esta história GRATUITAMENTE!