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Bastou o primeiro feixe iluminado estender-se pela delegacia, para que a sentença do prefeito McDonald explodisse entre os corredores, através do pedaço de papel datilografado que surgiu na mesa de Randall Walters.

Em letras pesadas, com rastros de tinta preta e fresca, a pior notícia que poderia acometer Jack Johnson encontrava-se à mostra.

"Alvará de Soltura para Tom Joseph McDonald. "

O ar que subiu por suas narinas o fizera em uma rajada bruta de ventania, revirando suas emoções, escapando pela espuma embebida por raiva que sua boca expeliu.

Mas ele não gritou, como de costume.

— Vamos à imprensa — declarou, controlando seus impulsos de destruir aquele pedaço de papel com os dentes. — Ele não vai deixar esta delegacia. Depois, vamos entrar com o pedido para reavaliação.

A frieza encarcerada às suas palavras foi notada por Oz, que rapidamente levou sua atenção ao amigo.

— Você sabia que seria difícil desde o início — articulou, cauteloso. — Não podíamos esperar por algo diferente, Jack. Ele é filho do prefeito, e o sistema funciona assim...

Não importa! — o detetive submeteu-se a um grito estridente, espalmando a mão sobre a mesa. — Nós vamos ao hospital, e obrigaremos o mordomo a se pronunciar, a falar com os jornalistas, a fazer qualquer coisa que nos ajude a manter esse verme bem aqui, longe da sociedade, longe do papaizinho dele.

— Um dos repórteres do Times-Picayune publicou uma matéria a respeito do prefeito McDonald, ano passado. — Oz o encarou; a calmaria recusando-se a afastar-se de seu tom de voz. — Ele reclamou das políticas dele, senão me engano. Podemos procurá-lo, para nos ajudar.

— Não é de ajuda que precisamos, Oz — Jack o corrigiu, os dedos contorcendo-se de fúria. — Precisamos que ele escreva cada sílaba que o mordomo puder nos falar. Cada mísera vírgula, cada detalhe que ele possuir que nos poderá ser útil. E temos que fazer isso agora, antes que essas malditas vinte quatro horas passem, antes que nosso trabalho vá para o ralo, por conta da prepotência desse prefeito de merda, que sustenta um sistema injusto prestes a livrar um assassino do lugar dele. Não é ajuda, neste caso. É questão de caráter, é um pedido de socorro.

Um silêncio extenuante ocupou-se pelo escritório, mais uma vez desde que aquela longa madrugada tivera início. As mentes fatigadas dos policiais insistiam em processar a enxurrada de informações que lhes fora jogada; todas as mudanças bruscas que vagaram pela delegacia até o instante. Os olhos ardiam pelas horas que os separavam de descanso, as olheiras pesavam em ondas negras que gritavam em nome do cansaço que lhes acometia. Mas Jack e Oz entreolharam-se, em uma confirmação mútua, um diálogo sucinto e vazio que lhes foi suficiente para que se levantassem, apoiando-se no fim de suas energias, e seguissem adiante.

— Você está certo. — Oz concordou. — Vamos à sede do jornal. Não é como se tivéssemos algo a perder, afinal. Bom, além dos nossos empregos. Mas, honestamente, entre ser parte da escória que ocupa esta delegacia ou estar fora dela, fico com a segunda opção.

— A nossa única possível perda é a companhia do Tommy, Oz — Jack rebateu, sorrindo em deboche. — Não podemos perder nosso amigo.

Acomodados no Bentley negro, com Oz enfim livre dos curativos no volante, eles prosseguiram através das largas avenidas da cidade aos lampejos daquela fria manhã de outono. As folhas caídas sobrevoavam o asfalto, a calmaria irrompendo pelas poças lama advindas da tempestade da madrugada.

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