Quando os demônios saem para brincar Part.2

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**Aviso de conteúdo forte.**

Ainda sobre a minha infância, quando eu demonstrava medo em filmes de terror e por histórias macabras, minha avó costumava dizer que não era necessário ter medo dos mortos; e sim dos vivos. Os mortos eram apenas almas impossíveis de serem vistas, vagando por aí em busca do perdão eterno ou apenas descansando no paraíso depois de uma longa jornada.

Os vivos é que estavam entre nós, cada vez mais perigosos, com muito ódio e pouca misericórdia.

De volta à aqueles dias, eu não deveria ter me surpreendido com o fato de Bob estar fora da cadeia pouco tempo depois de sua prisão com testemunhas suficiente para fechar o caso, não sendo filho de político corrupto. A vida nos ensina que a injustiça sempre prevalece, e que até mesmo o sistema da maior potência mundial era escrava de uma milícia suja; àquela altura, eu já não acreditava em karma, justiça, e muito menos em segurança. Se a sua família tem dinheiro, você pode ser um estuprador desgraçado que a sua liberdade será comprada, é assim que as coisas são; é assim que tantas pessoas são mortas todos os dias, indo contra o sistema. (N/A: Marielle Presente!)

A música havia terminado e o ginásio todo aplaudia a performance dos casais, mas eu involuntariamente ainda me prendia ao corpo de Lauren com força o suficiente para preocupa-la. Encarar Bob depois de tudo o que aconteceu criou um misto de sentimentos dentro de mim que se identificavam entre ódio, medo, angústia extrema, e tudo que pudesse provocar a minha ansiedade. Sim, meu estômago estava embrulhado, minhas mãos suadas, a dor no peito começava a me sufocar em um ambiente climatizado e meu coração batia tão rápido no peito que chegava a ser dolorido.

— Camila? Você está tremendo! — Lauren tentava a todo custo me empurrar levemente para me encarar, mas minhas mãos estavam presas em seus ombros e meu corpo decidido a não se mover.

Olho no olho, fogo contra gelo e o ginásio todo explodiria com a guerra que acontecia entre Bob e eu. As pessoas começavam a notar sua presença, algumas tão surpresas quanto eu, outras apenas chocadas e repassando a grande noticia da noite. Ele não se importava, é claro, seus olhos nunca deixavam os meus, eu podia ver o ódio contido que ele sentia por mim, da mesma forma que era possível ver o medo cintilando nas minhas orbes castanhas.

— Você está me preocupando, Camila...converse comigo, por favor!

Conversar? O que eu diria à ela? O quão vívida estava as memórias ruins? Que eu estava prestes a vomitar de nervoso e tremendo tanto que mal tinha controle sobre meu próprio corpo? Olhar para Bob era como voltar aos meus piores dias naquela escola, especificamente no dia em que ele me arruinou; ele apertou o gatilho de uma arma que eu mesma havia carregado para a minha ruína, admito, mas nada justificaria seus atos nojentos contra tantas garotas inocentes. Foi depois dele que deixei de acreditar no amor, na primeira vez perfeita, na magia de entregar-se à alguém de corpo e alma. Bob deixou sua marca no meu corpo, algo que sempre me fará sentir suja e enojada de mim mesma.

—  Não posso continuar aqui... — falei com dificuldade, só então me dando conta que arranhava sua nuca com a força exercida em sua pele. Quando criei forças para encara-la, vi o pânico estampado em sua face pela preocupação.

— Você está chorando! — eu estava? — O que aconteceu? Nós podemos resolver isso se você me contar.

Ah, Lauren! Você não faz ideia do quanto está doendo, uma dor inexplicável que me arrancou brutalmente de seus braços. Sentindo-me completamente sem ar, empurrei-a sem pensar muito no que estava fazendo, eu precisava apenas vomitar e ficar longe de qualquer pessoa.

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