Luz no fim do túnel

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Bullying: É um anglicismo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder.

(Camila)

Quando eu era bem pequena, minha mãe me levava ao centro da cidade pra andar por lá e fazer compras. Sempre que a gente passava por uma certa rua eu ouvia o som de um piano tocar, mas não sabia de onde vinha aquela música. Só sabia que aquela melodia me acalmava. Uma vez cheguei a ver um pôster numa porta pequena e nele havia umas meninas de tutu todas alinhadas numa pose. Acho que senti medo quando olhei aquilo, mas elas passavam uma imagem de serem importantes e de fazerem algo que, em minha opinião, seria impossível de ser feita por alguém normal. Um bom tempo se passou e não sei por qual motivo decidi que faria uma aula de ballet pra saber como era. Minha mãe não entendeu, porque ela me disse que eu odiava quando era pequena. Mas mesmo assim, ela foi me acompanhar na aula experimental. Pra achar a escola que eu ia fazer aula, abri a lista telefônica e agendei com a primeira escola que apareceu na minha frente. Quando cheguei à aula, de fato, a escola era naquele mesmo lugar de onde saía à melodia do piano que ouvia e que me atraia quando eu era pequena.

Meus cabelos castanhos estavam gigantes. Antes de eu entrar para a aula, uma das meninas me fez um coque. Durante a aula eu não entendia muito bem o que estava acontecendo. Nunca havia executado passos de ballet na vida, mas eu assistia com atenção e tentava repetir como dava no momento. A menina ao meu lado na barra olhou para mim e disse que eu era espiã da escola rival, não acreditava que era minha primeira aula de ballet. Quando a aula acabou, minha mãe – que ficou me esperando o tempo todo – perguntou o que eu havia achado; eu não sabia responder. Mas lembro de sentir uma adrenalina enorme passando pelo corpo, uma vontade sair dançando pelas ruas e a certeza de que eu queria voltar na próxima aula.

Sempre foi difícil me encaixar em qualquer lugar, fosse na escola, aulas de natação, até mesmo aulas de violão minha mãe tentou, então eu apenas acabava desistindo e voltava para casa ainda mais frustrada por não me enquadrar em nada. Mas, quando eu entrava na aula de balé, me sentia entrando em casa, fazendo algo que realmente tinha sentido e que me aproximava de mim mesma.

Quando alguém sentar num banquinho e tocar um piano só pra você dançar a sua música, nessa hora você sente que o mundo para e não há nada que te faça sentir igualmente aconchegada.

Nas aulas eu era apenas Camila, sem abusos e bullying me perseguindo pelos corredores; sem medo de ser atacada a qualquer momento. Ninguém se importava se eu usava laços coloridos, vestidos de verão; ninguém se importava se eu era magra e esquisita, seus únicos interesses era a música, e apenas ela. Eu me apaixonei gradativamente pela dança em todos os seus aspectos, passei dias trancada no meu quarto treinando equilíbrio, e então eu já não era mais desastrada. Aos 13 anos, abandonei o ballet para a dança do ventre, e aos 14 troquei a dança do ventre pelo o tango. Eu soube que estaria destinada à dança ainda nos pequenos passeios com minha mãe ao centro da cidade, mas não sabia que as dificuldades começariam logo cedo.

Logo no primeiro ano do ensino médio, eu fiz o teste para as líderes de torcida com o intuito de me encaixar naquela escola, para continuar dançando e na esperança de que o bullying parasse. Lauren havia se trancado em seu próprio mundo de estudos e ignorava o que faziam conosco, mas, de certa forma, eu sabia que éramos diferentes exatamente nesse aspecto. Quanto mais a atormentavam, mais forte ela se tornava. Quanto mais me atormentavam, mais obcecada eu ficava. Obcecada por vingança, quase cega pelo ódio que me consumia cada vez que disparavam palavras xenofóbicas para mim; sempre criticando e ridicularizando minha origem latina. As decepções são instrumentos de construção para as paredes que criamos em nós mesmos, mas infelizmente, as pessoas que estão de fora nunca vão entender o que se passa em seu coração.

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