O som do silêncio - Parte 1

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(Narrador)

Ela não se lembra de muita coisa de sua infância, exceto pelas brincadeiras na chuva e as lanternas nas janelas das casas verde e azul. Parte de sua memória sobre o bullying que sofrera quando ainda era pequena fora bloqueada de sua mente, como um antivírus poderoso que cuida todos os dias para mantê-la distante de memórias esquecidas com o tempo. Apesar de amar sua família incondicionalmente, Camila sempre soube que eles foram imprudentes quanto à sua depressão e ao que estava acontecendo com a filha mais velha bem debaixo de seus narizes. Talvez estivessem apenas ocupados demais tentando manter os pedaços do casamento. Aos 13 anos, sua amiga de infância, Dinah, mudou-se para o Texas com a família, enquanto a jovem latina perdia uma das pernas do tripé que ela, Dinah e Lauren formavam. Os anos foram se passando, e cada dia mais tornava-se uma tortura acordar para a escola, onde ela sabia que voltaria com algum machucado e com seu psicológico afetado, como sempre. Sua melhor amiga, Lauren, e agora também a garota que ela amava intensamente, parecia não se importar com o bullying que sofria e trancava-se em seu mundo particular de quadrinhos, filmes e seriados; mas esquecia-se que Camila não possuía mundo algum. O único mundo que Camila conhecia era o real e cruel que enfrentava todos os dias, e, por amor à Lauren, decidiu não contar sobre os constantes ataques que sofria na escola quando estavam longe uma da outra. Lauren não precisava saber que ela era patética como eles diziam, seria humilhante demais seu amor descobrir que ela não passava de uma garota fraca e covarde. Camila costumava imaginar que a escola era uma pista de corrida, e que Lauren e ela, corriam juntas em direção a linha de chegada, onde estava a verdadeira liberdade que elas precisavam, mas, sem ao menos notar, Camila viu-se muito atrás de Lauren na pista de corrida; sentia-se exausta demais para continuar correndo na mesma velocidade e decidiu deixar que sua melhor amiga ganhasse a corrida sozinha, ela merecia muito mais aquilo, de qualquer forma.

Então Dinah estava longe, Lauren isolada, seus pais não a compreendiam, e os abusos continuaram por mais de um ano. Ela teve a opção do suicídio, é claro que teve, por que continuar vivendo em um mundo onde as pessoas odeiam você? Por que continuar sozinha enquanto outras pessoas caçoam até mesmo das suas roupas, e a chamam de latina imunda por não pertencer àquele lugar? O descanso eterno foi uma opção considerada durante duas semanas. Não lhe soava nada mal simplesmente não ter mais que sofrer na mão de pessoas que brincavam de deuses. Elas simplesmente desapareceria e tudo estaria resolvido.

Mas ela estaria dando a eles exatamente o que eles queriam. Estaria lhes dizendo: "sim, vocês têm razão, eu sou uma latina imunda e não vou mais incomodá-los. Desculpe se minha existência os incomodou por tanto tempo." Não. Seria fácil demais. As pessoas tendem a se acharem no direito de apontar o dedo para julgá-la sem antes olhar para os próprios erros, são hipócritas ao ponto de esconderem-se atrás de máscaras de ódio para então pregar paz no mundo quando vão à igreja nos finais de semana. Querem tirar o cisco que está no olho de outra pessoa e não se preocupam com a viga nos próprios olhos, como diz a Bíblia.

Camila não queria ceder tão facilmente, e não cedeu. Ela encontrou a saída, indo de encontro aos seus bullies e se infiltrando no mundo deles, provando que poderia ser tão boa quanto qualquer um daqueles que a perseguiam. Ela ficou cega de ódio e dopada de vingança. Vestiu o uniforme da hierarquia mais alta daquele circo de atuações, desbancou aqueles que um dia a rebaixaram e tornou-se, sem dar-se conta, aquilo que mais repudiava.

Já não existiam mais brincadeiras na chuva e as lanternas foram desligadas. Os laços foram substituídos pelo elástico de cabelo, a dignidade foi trocada pela popularidade, pois não se pode ter os dois; ou você mantém seu caráter limpo ou se torna uma popular, sem meio termo.

A chuva caía intensamente do lado de fora da casa de Lauren, o som fortes dos pingos contra a janela ajudavam Camila a respirar melhor, depois de chorar por quase meia hora assim que Lauren caiu exausta ao seu lado, adormecida. Elas transaram como sempre, com Camila encarando qualquer coisa que não fossem as esmeraldas que insistiam em assistir cada reação sua, quase como se Lauren estivesse disposta a parar o sexo se Camila mostrasse sua fraqueza. Ela estava envergonhada, humilhada e sentia-se suja pela primeira vez em tanto tempo; ela não queria que Lauren a visse daquela forma, não queria ter que ceder e admitir que estava perdida, não queria que a morena de olhos verdes sentisse pena dela. É irônico pensar que, desde que se envolvera com Lauren, desde as aulas de química, Camila havia se tornado uma garota com várias primeiras vezes. Era como se, aos poucos, sentisse coisas que julgava ter esquecido. Arrependimento por usar Lauren, admitir para si mesma que podia ser apenas ela mesma quando estavam juntas, admitir que seus amigos não passavam de adolescentes patéticos e que seu mundo cor de rosa já não era tão perfeito assim.

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