Machucada

13 3 4

No sonho estou correndo dos amigos de Boné

Ops! Esta imagem não segue as nossas directrizes de conteúdo. Para continuares a publicar, por favor, remova-a ou carrega uma imagem diferente.

No sonho estou correndo dos amigos de Boné. Eles vem atrás de mim por que estavam me olhando. Eu precisei fazer o Otávio parar! Eu precisei! Ele estava rindo de mim. Estava me olhando daquele jeito.

Corro e volto para o depósito de carros. Lá que levam os carros que arranjam no asfalto para pegar as peças. Já fui expulsa da escola por que ceguei uma de minhas colegas de turma que riam de mim. Ela mereceu... Mereceu não ver mais.

Minha cabeça está rodando... Otávio e ela estão me olhando sem olhos, estão correndo atrás de mim como os amigos do boné corriam também. Os amigos dele estão com os olhos furados, igual eu fiz com a menina que me olhou na rua. Eu furei com o lápis. Lápis são uteis para se defender. Eu gosto de deixar sempre bem apontadinho. Ele me ajuda a fazerem parar de olhar.

Agora estou presa no depósito com os sem olhos. O clone também está aqui, está rindo. Rindo de mim. Muitos clones dele que viram ciclones. O vento leva embora onde estou e só sobra o quarto de dormir, presa com muitos olhos no escuro me olhando. Olhos que querem descobrir tudo de mim e vão contar para o que sabe de tudo. Eu não vou deixar! Não vou deixar!

Susto. Acordei assustada olhando para os lados. Ainda estou presa no quarto, mas não tem os olhos olhando para mim. Não tem clone e nem gente sem olho com sangue saindo. Não tem mais nada, só eu e meu pulso doendo. Por que o que sabe de tudo foi tão mau? Ele machucou meu pulso e eu só queria salvar a moça, queria salvar a moça de virar clone igual a mim. Clones ficam presos pra sempre.

Ainda não está claro, mas as vezes fico sem sono muito rápido. A porta do meu quarto ficou aberta a noite toda, talvez o Andy tenha deixado para eu sair, caso quisesse. Obrigada, Andy! Fez os olhos irem embora por que a porta estava aberta. Eles fugiram quando eu acordei.

Ando pelo corredor longo e úmido devagar, com os pés no chão. Não gosto muito de usar sandálias, elas me impedem de correr. De madrugada por aqui escuto sons que não queria ouvir. Escuto alguém chorando quietinha no quarto que vi o que sabe de tudo entrar. Conheço o som de choro assim. Conheço bem sim. Bato na porta e o choro para. Deve ainda estar muito assustada.

– Clara, tá tudo bem? – Pergunto do outro lado da porta. Ultimamente tenho falado muito com pessoas atrás de portas. É muito feio entrar sem ser convidado.

A porta abre e ela me abraça chorando. Não sei o que fazer mas dou alguns tapinhas nas suas costas para confortar ela. Por que chora tanto? Olho com calma. Ela está quase sem roupa! Solto ela e tampo os olhos.

– Não tá tudo bem! Não tá! – Ela me puxa pra dentro do quarto pela mão, tirando minhas mãos dos olhos. Não é bom olhar gente sem roupa. Está uma bagunça, pior que meu quarto lá em casa.

– O que aconteceu? – Pergunto enquanto ela tentava esconder uma mancha de sangue no lençol. – Alguém te machucou?

Ela encolhe, sentando-se na cama. Só consegue chorar. Olho com pena. Ela chora demais, deve ser muito triste. Talvez, a pessoa mais triste do mundo. Sento na cama com ela para ajudar.

– Ele... Ele fez isso, Ana Luisa... Ele fez isso. – Ele? Ele quem? O clone? Ou talvez o que sabe de tudo... Vi ele entrando aqui. Ele me machucou, poderia machucar ela também.

– Foi o que sabe de tudo? – Pergunto e ela volta a chorar. Abraça e chora mais. Realmente não faço ideia do que fazer mas passo as mãos  em volta dela. Está machucada, com as unhas quebradas e o cabelo bagunçado. Mesmo assim é bonita. Ela é um pouquinho mais nova do que eu.

– Eu.. Eu não posso dizer quem foi... Não posso.

Deixei ela chorar em mim. Não sei quem foi, mas fizeram maldade com ela. Não gosto disso... Lá onde eu morava, quem fazia maldade morria. Aqui devia ser assim também. Quem faz maldade com menina morre.

– Tá bem... Não fica triste. Não vai ter mais... Eu ajudo você, te protejo. – Passo a mão no cabelo dela. Não me importo que ela olhe para mim, mas ela nem faz isso. Está de olhos arregalados olhando para a porta. – Quer que feche?

Ela concorda com a cabeça e para de me abraçar. Poucas pessoas eu deixo me abraçarem. Eu gostava dos meus irmãos. Eles podiam me abraçar também. Vou até a porta e tranco com a chave de dentro.

Ajudo ela a ir no banheiro para limpar o rosto. Ajudo a lavar e ligo a água do chuveiro para ela. Aqui é chique, tem água quente saindo. Lá em casa tinha só balde mesmo. Ela tira a roupa escondendo os machucados e ajudo ela a entrar no chuveiro. Ela fica quietinha, não fala nada mas o machucado ainda está saindo sangue entre as suas pernas. Entrego o sabonete e ela passa. O pulso ta marcado, machucado. As pernas também, lá no tornozelo. Alguém foi muito mau com ela. Machucou também o rosto, está vermelho.

Por que fazer maldade com ela? Ela é novinha e agora tá machucada, e nem é só no corpo.

Back to the IslandLeia esta história GRATUITAMENTE!