Ato impensado

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Thiago Saether

Maya é definitivamente a mulher mais linda desse lugar. Todos os dias pela manhã vem em minha sala para trazer café e beber comigo. Hoje não foi diferente. Escuto o bater característico dela em minha porta que logo é aberta. Abro um breve sorriso ao vê-la logo cedo com seu jaleco por cima de um vestido relativamente curto e um belo salto alto.

— Bom dia, Thiago. — Como sempre, trouxe o café já pronto e quentinho feito por ela mesma.

— Bom dia. — Respondo já a observando suas pernas. Assim que ela percebe, dá uma voltinha para que eu veja melhor sua apresentação para mim. — Está linda.

— Eu sei disso. — Convencida. Eu gosto que ela saiba ser bonita e minha. A aliança ainda brilha em seu dedo. Sei bem que ela afora mostrar por aí que é a noiva do dono. Isso não é algo que me incomode, afinal ja que pelo menos vão respeitar o que é meu.

Ela serve meu café e põe um pouco para ela. Bebemos juntos sem pressa alguma.

— Você soube que um daqueles pacientes crônicos morreu? — Pergunta despretensiosamente enquanto leva a xícara a boca e dá um gole.

— Qual deles? — Os pacientes crônicos são aqueles que já estão aqui ha anos, que estão tão queimados que mal conseguem se mover.

— Um tal de Adib. Conhece? Disseram que ele é um ex-funcionário. — Aperto os olhos tentando não esboçar muita reação. Ele não podia ter morrido, não ainda!

— Conheço. Como isso aconteceu, Maya? Causas naturais? — Ela imediatamente nega com a cabeça.

— Durante a ECT... Andy que o viu morto no quarto daquela retardada que me feriu. — Ela se refere a Ana Luisa. Por que diabos eles estavam no mesmo quarto.

— Griffin mal voltou e já passou dos limites. Quando terminarmos quero que chame o Erick para conversarmos. — Maya fecha a cara imediatamente. — Que foi?

— Mal cheguei e você já está me mandando embora, Thiago. — Às vezes Maya me tira do sério com tanto drama.

— Estou fazendo um pedido importante. Ele não poderia ter fritado alguém sem minha autorização, muito menos o Jatene. — Realmente o Estado pagava muito bem por mante-lo aqui. Bufo irritado virando o resto do café em minha boca. — Vai chamar o Erick ou vou precisar pedir para a outra residente fazer isso pra mim?

Pergunto calmo, mas com um sorriso no rosto. Não posso negar que vê-la nervosa é muito bom.

— Então vai lá com ela! — Maya se levanta e vai na direção da porta praticamente batendo o pé. Levanto e corro até ela segurando-a pelo braço e a beijando.

— Ciumenta. — Ela sorri e me devolve o beijo. — Eu não vou trocar você.

Seu sorriso fica ainda maior e sua mão sobe até minhas cicatrizes no rosto, fazendo um carinho.

— Eu vou chamar o Erick para você.

Beijo-a novamente e coloco meu corpo em frente a porta, trancando-a. Temos algo a fazer e eu não quero ser interrompido.

Algum tempo depois, ela já arrumava o cabelo e o vestido em minha frente. Não sei o que ela tem para me fazer ficar assim, babando. Logo eu que pensava ser imune.

Maya sai rebolando e eu fico sentado na mesa fechando minha camisa. Assim que termino de me arrumar escuto a porta bater. Passo a mão na minha roupa, escondendo o amassado da roupa de baixo.

— Pode entrar. — Sento-me em minha cadeira antes que ele entrasse. Erick chega com nariz em pé como sempre, imediatamente lembro do motivo de te-lo chamado. — Senta.

Seu olhar abaixa. Sabe muito bem que fez o que não deveria.

— Eu posso explicar. — Diz ele ja sem jeito, ja ficando pálido. Causar esse medo é uma das minhas ações prediletas.

— Então me dê uma boa razão para eu não te jogar de novo naquela cela. — Apoio os cotovelos na mesa enquanto aguardava.

— Ele tentou fugir e quase levou a Ana Luisa junto. — Solto um riso debochado bem contido.

— Não gostou da companhia da sua filha? Não quer que ela tenha amiguinhos? – Digo ao ver a seriedade subir pelo rosto de Erick em um tom vermelho.

— Aquele 'projeto de Sarah' é tão retardada quanto a mãe. — Nego com a cabeça diante de sua afirmação.

— Não, não. Ela teve uma vida bem agitada na favela onde morava. Já matou, torturou... Parece bastante com você. — Ele solta o ar rapidamente junto com uma risada baixa. Apoio as costas na cadeira. — A menina rende muito dinheiro. Não quero que encoste nela. Estamos entendidos?

— Eu só encostei no Jatene! Ele merecia isso há anos! — Fecho a cara para ele. Ele sabe muito bem o que penso sobre essas mortes.

— Posso então retirar do seu dinheiro investido todo o valor que o estado pagava por ele? — Digo sério.

— Ninguém precisa saber da morte. — Agora quem ri sou eu, nem um pouco contido.

— Você quer que eu entre em consenso com você quanto a isso, Erick?! Só pode mesmo ter enlouquecido após tanto tempo trancado! Eu vou perder uma fortuna e a culpa é toda sua. — Aponto irritado para a cara dele, que me encarava.

— Eu sou o segundo maior investidor desse lugar. Você não pode fazer isso. — Ele faz questão de lembrar desse fato tão desprezível. Meu pai não poderia ter escolhido um sócio pior.

— O SEGUNDO MAIOR INVESTIDOR DESSE LUGAR É O ESTADO!! — Grito perdendo um pouco da compostura, mas logo me recomponho. — Eu posso fazer o que bem entender, eu sou o dono.

 — Eu posso fazer o que bem entender, eu sou o dono

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