Desobediencia

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Clara Griffin

As horas dentro desse quarto parecem não passar. Eu estou acostumada a ficar sozinha, mas não dessa forma. Eu gosto de ter coisas para fazer, nem que seja tocar violão ou cantar. São coisas que acalmam minha mente.

Levanto-me da cama guardando o livro que trouxe para ler. Sempre gostei de histórias medievais e esse livro foi o que mais me encantou. Eu não posso dizer por aqui do meu amor pela leitura. Não é bom que mulheres leiam de forma alguma, eu leio e a sorte é minha. Consigo viajar para todos os lugares.

Vou até a porta e abro lentamente. Esse lugar é como um livro de terror e por isso mesmo desperta um pouco de curiosidade. Sei que devia ficar no quarto, mas não quero ficar trancada aqui para sempre. Já não basta que as aulas sejam aqui? Detesto ficar presa.

Saio do quarto praticamente na ponta dos pés, toda essa adrenalina me faz lembrar os antigos tempos do reformatório. Eu e meus melhores amigos adorávamos furtar a cozinha de noite, usar drogas de madrugada e até roubar as cozinheiras enquanto dormiam. Tive uma vida bem animada antes de tudo isso. Acho que por isso sinto tanta falta da agitação.

Segui andando e vendo o lugar que tanto me assustava. As pessoas gritavam atrás das grades quando me viam, pedindo ajuda. Pediram para que eu os soltasse enfiando as mãos pelos buracos entre as grades, por vezes ferindo-se.

Estava distraída demais quando ouvi alguns passos que vinham do corredor. Pensei em me esconder com medo de ser Dave. Ele surtaria se me visse aqui fora sozinha, mas quando os passos se aproximam respiro aliviada. Não é meu irmão.

Trata-se de um homem realmente muito bonito que faz meu queixo cair. Alto, loiro, lindo. Fico imediatamente corada. Droga! Vontade de me esconder, enfiar a cara no meu casaco.

Ele já ia passar por mim sem sequer olhar na minha cara, mas para o meu espanto ele parou em minha frente a mim. Olhou-me e logo abriu um sorriso simpático. Não sei por que meu irmão tem tanto medo que eu converse com as pessoas, são simpáticos.

– Oi! – Eu disse um pouco desengonçada. – Sou Clara.

– Castelli. – Estende a mão para mim, sorrindo. Claro que aperto! Aperto com prazer. Estou ainda mais vermelha. – Quer conhecer melhor o hospital? Eu posso te levar.

– Eu adoraria. – Respondo imediatamente. – Meu irmão mandou eu não sair, mas estou curiosa.

– Entendo a preocupação, mas seria bom conhecer sua nova casa, não acha? – Concordo com a cabeça animada. Seria bom passear bem acompanhada.

Ele faz um movimento para que eu andasse ao seu lado e seguimos juntos pelas muitas alas do hospital. Existem alas para loucos, doentes, crianças e bandidos cruéis. Observo o grande corredor ainda mal iluminado. Thiago deveria pedir para trocarem essas luzes amarelas que tanto doem os olhos. Vou falar com ele mais tarde.

– Há quem diga que essa ala já foi uma das piores. – Ele diz em relação a uma parte claramente mais antiga de uma das alas. – Existia um comedor de gente.

– Isso não existe. – Afirmo arregalando os olhos, tentando me convencer que é apenas uma brincadeira de mal gosto.

– Bom... O que dizem é que ele conseguiu escapar da ilha uma vez e morreu na segunda tentativa. Totalmente perdido no oceano. – Ele conta inflando o próprio ego. Parece gostar de me causar um frio na espinha. No fundo gosto de sentir medo.

Ele segue comigo para uma cela ao final do corredor e abre uma das portas antigas, que rangia a cada minúsculo movimento.

– Era aqui que ele ficava? – Pergunto curiosa, ja tentando ver o que havia lá dentro. É um quartinho pequeno e escuro sem luz di sol, sem luz nenhuma. Ele concorda com a cabeça confirmando que esse era o lugar que o maior dos loucos ficava a maior parte do tempo, se é que ele existiu.

– Pode dar uma olhada lá dentro. Eu te espero aqui.

Essa permissão é tudo o que eu queria. Entro curiosa. Vejo de perto as marcas de unhas na porta ainda suja com um pouco de sangue seco grudado. Vejo a marca úmida que o corpo do homem fez ao fundo da sala. Não podia ser mais interessante. Será que era ali que ele passava a maior parte do tempo? Será que ele não saía? Qualquer um ficaria insano aqui dentro.

– Você o conheceu, Castelli? Conheceu o comedor de gente? – Ele sorri e nega com a cabeça.

– Não, mas acho que você poderia tentar entender mais um pouco o que é ser louca. Não acha?

O que? Antes que eu pudesse entender escuto a porta fechar com trinco. Está escuro como jamais consegui imaginar que seria possível. Não enxergo absolutamente nada! Bato na porta com força.

– ME TIRA DAQUI!! – Chuto e bato na porta. Esse lugar me assusta. Parece que estou sentindo a presença do comedor de gente, quase sinto sua respiração em meu pescoço. Meus olhos enchem de lágrimas. – NÃO TEM GRAÇA!! Me tira daqui Castelli!!

Ouço uma risada vinda do lado da porta. Estou assustada. Escuto os passos de afastando. Tento bater, gritar mais... Nada funciona! Parece que ninguém vai poder me ouvir daqui... Encosto-me na porta para poder ver o que acontece na solitária escura. Encolho-me assustada.

Não costumo ter medo de escuro, mas estou apavorada. Sinto um frio na espinha, estou tremendo. Bato na porta de novo. Não sei se realmente quero chamar atenção... Não sei se quero ser salva por algum dos loucos daqui... Me tirem daqui!! Eu preciso sair.

Dave me avisou. Eu devia ter ouvido meu irmão.

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