Lara Scott

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Eu não sou louca, não escuto vozes! A primeira coisa que fizeram antes de me colocarem no barco foi cortarem meu cabelo. Curtinho assim. Tiraram todo o resto de tinta que ainda os tingia. Tiraram tudo na tesoura e naquela maquininha de som insuportável. Meu lapis de olho ja tinha escorrido até onde podia. Não consigo me manter calma sequer na viagem. Odeio barcos. Odeio ilhas. Odeio ter sido levada para um lugar horrendo como esse. Um lugar feito para doentes e psicopatas.

A camisa de força é quente, desconfortável. Tento puxar os braços. Os meus chutes já não funcionam, meu corpo está fraco e mal responde graças a este bando de drogas que injetaram em mim. Dizem que sou um 'estorvo', mas não sou! Dizem que sou louca! O que é ser louco afinal? Ser louco é incomodar com a própria felicidade?

Claro que já ouvi falar desse manicômio. É para cá que os piores costumam vir quando são capturados. Eu tenho medo. Tenho medo que eles façam alguma coisa comigo. Meus pais tem tentado me afastar de certas pessoas, por isso mexem em minhas coisas e não me deixam em paz. Dizem que eu devia procurar um rapaz sério para me casar. Eu não quero casar com rapaz nenhum. Mal sabem eles que já sei muito bem com quem casar e, eu posso garantir que não é um rapaz.

Eu fui noiva e acredito que quem está por trás de tudo isso seja ele. Sei muito bem do que ele é capaz.  Agora meus pais me controlam da mesma forma que ele controlava, deve ser por isso que pirei. Não fiquei louca da maneira clássica, afinal não sou insana, mas dei uns gritos de tanta raiva e joguei alguns itens da casa no chão... Na verdade, todos que minhas mãos puderam alcançar.

Quando chegaram para me buscar eu imaginei que seria presa, não internada neste inferno. Pensei que aqui só internassem os casos graves! Pensei que iria responder um processo e pronto. Feito. 

Jogaram-me em um cubículo chamado de Quarto. tem um vaso, uma cama pequena e só. Sem água? como vou fazer para ao menos me hidratar? Ainda estou presa nessa maldita camisa de força quando um rosto aparece pelo visor da porta. Um homem de cabelos loiros. Ele usa um jaleco tão branco que parece novo, agora que ele entrou consigo ver uma caneta super cara pendurada em seu bolso. Reviro os olhos. Um grande mauricinho.

– Bem vinda, Lara. Eu sou o dr. Castelli. Vou cuidar de você de hoje em diante. – Ele diz com uma voz firme e penetrante. Ao menos é bonito. Imagino que seja uma peça rara por aqui.

– Eu não devia estar aqui. Isso é um engano. – Eu digo tentando parecer calma. Não quero que ele ache que eu sou como as outras daqui. Eu não sou insana como todas elas. Eu não sou uma psicopata nem serial killer. Se alguém devia estar internado aqui era meu pai. Ele é o meu grande problema.

– Todas as internações são grandes enganos. – Ele ri e resolvo não falar mais nada. Ele não está disposto a me ouvir. Ele está achando que sou só mais uma. Pensa que eu vou aceitar esse inferno? NUNCA.

– Conte um pouco como chegou aqui.

" – Não tenho nada para contar se você não acredita em mim." – Pensei e o encarei. Teria cruzado os braços se não tivesse presa.

– Não quer falar então. – Ele usa aquela caneta caríssima para escrever em uma prancheta que estava em sua mão. Então ele segue. – Não sou adivinha, ou você fala ou não vou conseguir te tratar direito.

Eu continuo em silêncio. Minha vontade é voar em seu pescoço. Maldito que não acredita em mim. Colocaria minhas unhas em seu rosto o mais fundo que poderia. Esse rostinho bonito se transformaria rapidinho em algo escandaloso. Eu rasgaria esses malditos panos que fazem dele médico... Eu faria tanta coisa...

– Perfeito. – Diz ele novamente. Então vira as costas e sai da sala. ouço lá de fora ele falando algo que parecia...

SOLITÁRIA?!

– NÃO! POR FAVOR! EU ODEIO FICAR SOZINHA! NÃO FAZ ISSO! EU FALO, EU PROMETO QUE FALO.

Não sou escutada e os homens entram novamente arrumando a camisa de força novamente no lugar e puxando-me para esse outra sala. O corredor até lá é horrível. Meus gritos ecoam pelos corredores como se estivessem em um autofalante. Vejo os olhos presos tão curiosos do outro lado das portas.

– VOCÊS ESTÃO COMETENDO UM ERRO!! – Digo gritando. O homem que estava a minha direita me solta e vai até minha frente, segurando-me pelos ombros com força.

– O que você fez com seu médico não tem desculpa. – Eu não fiz nada! Ele é um mentiroso! Ele quem não acreditou em mim. – Eu sou o chefe de segurança, menina. Eu não vou deixar algo assim acontecer impune. Aqui tudo tem consequências.

Então jogou-me para dentro de um cômodo pequeno, com paredes brancas acolchoadas. Deveria ser um lugar limpo, mas não é. o cheiro de urina e fezes é forte. A parte de baixo de todo o acolchoado está sujo de urina. O nojo sobe pela minha garganta e não consigo contê-lo em minha boca. Acabo vomitando por cima da camisa de força, sujando-a e me deixando ainda mais enjoada. Eu preciso sair daqui. Malditos remédios! Bato repetidamente com meu corpo contra a porta.

– ME DEIXEM SAIR!! EU PRECISO IR EMBORA! ME TIREM DAQUI!! – Repito. Grito ainda mais. Não vou parar até perder a voz. Eu vou denunciar isso. Vou denunciar esse lugar quando sair daqui.

Escuto  o clique da porta, o tal chefe de segurança volta irritado com mais dois. Eles me empurram e prendem-me na parede por uma alça que eu sequer tinha percebido na camisa de força. Estou agora sem poder sequer andar. Completamente presa.

Isso não pode estar acontecendo comigo.

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