... 45 %

4 1 0

Por sorte — ou mera lógica —, havia sim internet no local. E das mais rápidas. O problema em si não era esse, mas sim o meu telefone. Todos os telefones. Na verdade, todos os aparelhos eletrônicos. Nada do que nós, os campistas — como naturalmente aprendemos a nos chamar —, trouxemos de fora funcionava. Nada. Não conseguíamos acesso à rede do Campo Safira. Não conseguíamos sincronizar nossos celulares, nem receber ou enviar mensagens em nossos notebooks e tablets — bem, para ser honesto, pelo menos isso era o que os outros diziam, já que eu não tinha nada disso.

Não era possível ler notícias do mundo. Não dava para ver ou compartilhar fotos, assistir séries, ouvir músicas em streaming... Um total inferno.

Claro que isso devia estar escrito e bem fundamentado em algum lugar, por motivos legais; naquelas letras miúdas que ninguém lê quando assina um contrato.

Em outras palavras, estávamos mudos, surdos e cegos. E ficamos assim por algumas semanas. Ansiedade a mil. Nervosos por qualquer coisa.

No máximo poucos dias depois — horas, na maioria casos —, começamos a interagir uns com os outros. De estranhos, rapidamente viramos amigos e descobrimos interesses em comum. Fosse o apreço por produtos de entretenimento ou certa similaridade de pensamentos e opiniões. O objetivo do Bubble App em nos deixar offline deveria ser exatamente esse, porque deu certo. De outro modo, estaríamos mais no mundo virtual do que no real, como de costume. Levaríamos mais tempo para nos abrir e conversar.

Para construir pontes.

E fiz bons amigos ali, naqueles primeiros dias. Com pessoas mais novas, mais velhas e da mesma idade. Com homens e mulheres. Conversei sobre toda a sorte de assuntos que de algum modo diziam respeito a mim e às minhas aptidões. E o melhor: diferente do lado de fora do acampamento, ali encontrei ressonância. Aprendi. Descobri olhos e mentes que brilhavam por temas que faziam os meus próprios olhos e a minha própria mente brilharem. E só eu sabia o quanto isso era incomum.

Ali, entretanto, era a regra, não a exceção.

E, assim, o Bubble Camp provava ser o melhor lugar do mundo para se estar.

[...]

Praticamente uma semana depois, as regras do jogo mudaram.

Como de praxe, fomos acordados as oito horas em ponto por um despertador alto o bastante para se fazer ouvir, mas sublime o suficiente para não incomodar; dono de uma melodia que evocava o som de pássaros, de riachos e do vento.

Acordar ali era quase tão bom quanto dormir.

Vesti o uniforme azul e o calçado negro que havia encontrado no guarda-roupa do meu quarto, em frente à cama — medidas perfeitas para mim —, e segui junto com meus colegas de quarto para o refeitório. Nunca víamos ninguém que não fosse campista e estivesse devidamente uniformizado pelos salões, mas todas as manhãs o café estava servido, com vários tipos de frutas e uma variedade quase infinita de pães, embutidos e bebidas.

Geralmente sucos naturais, feitos quase na hora.

Talvez não houvesse um staff no Bubble Camp e fossem apenas máquinas as responsáveis pelo serviço. Ou, talvez, os trabalhadores do acampamento fossem tão silenciosos e esquivos que sequer pudessem ser notados. O fato é que tudo estava sempre delicioso.

Dessa vez, inesperadamente, havia uma diferença.

Ao lado de cada prato, copo e jogo de talheres, havia uma pequena caixa negra e retangular, com o tradicional círculo do logotipo da Bubble marcado em azul. Passei os olhos apressados ao redor e pude reconhecer o estranhamento na face de todos. Toquei a embalagem com a ponta dos dedos, sentindo assim os sulcos marcados pela faca de corte e a lisura brilhosa da cor impressa. Segurei as extremidades com a mão direita e ergui o pacote no ar, com a mão esquerda servindo de segurança logo abaixo.

Bubble AppOnde as histórias ganham vida. Descobre agora