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A SUV ficava maior a cada passo que eu dava em sua direção, do alto de suas grossas rodas de aro cromado. Ela era caracterizada principalmente por tons azulados e por texturas que lembravam vagamente o mar. Ou o céu noturno, talvez. Seu aerofólio traseiro e os parachoques — bem como o quebra-mato instalado na frente do veículo —, entretanto, eram pintados de preto fosco, conferindo certa agressividade à estética. Já os vidros possuíam películas escuras que eu jamais tinha visto: era simplesmente impossível enxergar através deles e eu desconfiei de imediato que eram de uso proibido no perímetro urbano.

O Bubble App não estava para brincadeiras.

E para onde eu ia, afinal?

Mesmo distante ao toque, intuí, ainda, que as portas e todas as partes do automóvel eram reforçadas. Possivelmente havia até uma estrutura à prova de balas ali.

Novamente respirei fundo, dessa vez com um menor grau de coragem e me perguntando se eu sabia de fato no que estava me metendo.

Não reconheci o modelo ou a marca, mas não me importei com o fato. Eu não era grande conhecedor carros. Além disso, tinha muito mais no que pensar. Parei junto de sua porta traseira e esperei, observando meu reflexo frágil no filme espelhado. Por ele pude perceber, também, vizinhos saindo de suas casas para ver o que se passava junto à calçada. Senti-me brevemente impaciente e estiquei os braços rumo à maçaneta.

A porta se abriu sozinha, antes que eu pudesse alcançá-la.

Era um convite para o meu acesso.

Entrei.

Do lado de dentro, tudo seguia novo e estranho.

O bagageiro da SUV tinha sido removido para dar espaço a uma larga e espaçosa poltrona. Quase uma cama, amparada por apoios de braços e por uma infinidade de botões — luz, abertura dos vidros, temperatura do ar-condicionado e alguns outros, como viria a descobrir depois. Mas não era só isso. Como em uma viatura policial ou em uma luxuosa Limousine — dentre as opções eu claramente preferia a segunda alternativa —, o espaço entre o motorista e os passageiros estava bloqueado. Ali, por uma armação sólida, também negra. Uma superfície opaca. Eu, de novo, não podia enxergar ninguém para além daquela parede e me peguei pensando se a regra valia para o outro lado; se o vidro bloqueava duplamente a visão ou se apenas a limitava para mim.

Nesse caso, eu podia muito bem estar sendo vítima de um voyeur.

Confesso que essa não era a melhor das dúvidas para se ter, ainda mais para alguém que detestava ser analisado, mas não me prendi a ela tampouco. Não havia muito que eu pudesse fazer depois de ter aceito os termos e concordado em ir para o Bubble Camp. Também, eu não era tão interessante assim para que alguém quisesse de fato ficar me observando por longos períodos de tempo. Seria literalmente jogar minutos e segundos na lata do lixo.

E eu não pretendia fazer nada de errado.

Naquele casulo protegido da luz do sol e envolto por uma temperatura amena, outra possibilidade crassa emergiu à superfície de mim: eu não tinha visto ninguém, ouvido nenhuma voz... Era bem possível que a SUV não tivesse um motorista ao volante; somente um piloto automático. Isso era plenamente possível frente a tudo que eu tinha visto até então.

Restava-me torcer para que, se fosse o caso, ele tivesse sido bem programado.

Cansado de confabular e perdendo grande parte de minha firmeza, bati a porta e me sentei na poltrona. Nessa ordem. Em seguida, o motor deu partida e o carro se pôs em movimento.

Não sem antes uma última surpresa.

Um pequeno compartimento se acendeu ao meu lado direito, o oposto de minha entrada na SUV, evidenciando um objeto escuro. Levei as mãos até o nicho aberto e tirei de lá o que parecia ser um par de óculos futurista. O trouxe rapidamente até a luz filtrada pelos vidros, na parte mais alta da cabine, sobre meu colo. E sim, era mesmo um óculos. Um óculos VR de cor azul.

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