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Semanas passaram.

O atentado foi confirmado pelas autoridades, várias manifestações de luto foram expressas por todo país — e pelo mundo — e diversas homenagens tomaram vez nos mais variados espaços e cidades. O motivo ou os culpados seguiam obscuros. Grupos reivindicaram a autoria do ato, enquanto outras hipóteses eram registradas pela polícia e pelas forças de inteligência, mas nenhuma delas irrompeu a grande mídia.

E a vida seguiu, indiferente. O (s) culpado (s), quem quer que fosse (m), havia (m) morrido na explosão e nada traria os milhares de inocentes de volta.

De todo modo, não foi sem surpresa que a rotina se restabeleceu, pelo menos para mim. A velocidade com que tudo voltou ao normal — mesmo com as feridas ainda escancaradas — me impressionou. A dor da perda seguiu no peito de quem tinha perdido entes queridos. O choque e o torpor permaneceram no rosto e nas expressões das pessoas, mas em pouco tempo o sofrimento perdeu seu espaço, virou banal.

Página a ser virada.

E, assim, ela realmente se virou.

A Rede Cidade — e sua equipe como um todo — foi nomeada aos mais variados e importantes prêmios do jornalismo por sua cobertura ágil e completa do atentado. Em seu saguão de entrada, na parede adjacente aos telões ao vivo, pendurou-se uma placa com o nome dos colegas falecidos da empresa; ideia da Sabrina. E chamava ainda mais atenção do que as televisões em si — dona de uma cor escura, de letras rebuscadas e sóbrias, estrelas tristes, frases sensíveis e tributos.

Estavam nela os nomes de pessoas com quem eu havia convivido; de quem eu era amigo. Por quem eu nutria carinho e muito respeito.

Paulo Henrique Vasconcellos.

Marcos Vieira Diniz.

Pedro Hullmann.

Gabriela Tellini Souza...

Sim, a Gabi tinha ido ao jogo, mesmo tendo dito que não o faria.

Não quis questionar muito sobre isso, mas tudo levava a crer que o ingresso que seria meu — e o Pedro realmente parece ter ido atrás de mais um convite — sobrou. E aí o Marcos deve ter convencido a Gabi a ir com eles até a final. E fim.

Lamentei o roteiro protagonizado por meus conhecidos.

Era para eu estar feliz por ter sobrevivido, por estar vivo. Mas não. Eram muitos "e se" na equação, e a Rede havia perdido profissionais ímpares também.

Amigos ímpares.

Preferia ter dado minha vida em troca de deles. Seria mais fácil. Muitos mereciam mais do que eu continuar por ali, tinham mais o que dar, com o contribuir, tinham família.

Propósito.

Perdi noites de sono pensando nos três filhos que o Paulo deixou. Entrei em contato com sua viúva e ofereci ajuda, mesmo sabendo que jamais poderia representar o papel daquele pai exemplar. Nada seria o bastante. Nem igual.

Para ninguém.

O Rubens havia sido o único do grupo a sobreviver. Outros profissionais, de outros setores, também tinham sido vitimados, infelizmente, mas o melhor cameraman do jornal tinha escapado. Sorte. Foi por pouco, com graves queimaduras pelo o corpo e com dois tiros de raspão causados pelos ataques secundários (drones teleguiados também fizeram parte do ataque). Mas antes isso do que a opção. Ele seguia na CTI de um dos melhores hospitais da região e não corria mais risco de morte, ainda que sem previsão de retorno ao trabalho — e sem certezas quanto à possibilidade de sequelas.

Torcíamos por ele.

Recebeu coroas de flores e cartões de colegas. Além disso, nas primeiras semanas, foi visitado quase que diariamente. O tempo passou e, com ele, as pessoas perderam interesse.

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