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O metrô abriu as portas em uma estação ainda distante do meu destino e, como em todas as paradas, pessoas entraram e saíram, levando consigo desejos mudos e queixas explícitas nas suas expressões tensas e carregadas. Eu viajava sentado, de costas para a plataforma. Meus ombros completamente colados aos de dois outros estranhos.

Todos perdidos em seus próprios pensamentos e rotinas.

O bafo quente que entrou junto pela abertura do vagão contrastou com o ar frio vindo dos aparelhos de ar-condicionado. Gerou incômodo. Pisquei os olhos e senti ideias se romperem em meu âmago.

Jamais as recuperaria.

Olhei pela janela em minha frente e deparei-me com a parede oposta do túnel — pouco afastada, verdade, afinal outros trilhos imantados passavam por ali. E tensão. E trens. E outras pessoas. Mas ao contrário de um esperado subsolo sombrio, a visão dali era cortada por luzes brancas e fortes presas no concreto.

LED.

Tudo era LED naquele mundo urbano.

Não havia descanso para as retinas, nem paz para a mente. Em nenhum lugar. As lâmpadas claras projetavam seu brilho em painéis enormes e coloridos. Anúncios. Marketing. Publicidade. Com toda a sorte de produtos e de serviços.

Compre, use, veja, esteja, seja. Aparente.

Finja.

Nada basta. Nunca.

Jamais deixe de consumir.

Um homem elegante e bem vestido, postado no alto de sapatos perfeitamente engraxados, bloqueou minha visão com sua valise negra. Preto. O escuro, enfim. Uma pausa para os sentidos. Não quis olhar para os lados, nem por cima dos meus ombros, pois encontraria novas propagandas. Olhei, então, para a frente. Para o executivo. Para aleatoriedade das fibras, tentando entender o padrão do couro que costurava-lhe a maleta.

Sulcos para todas as direções, bem dispersos. Ainda assim, não totalmente imprevisíveis...

Meu telefone vibrou.

[Oi, tudo sim. E com você?]

Era a resposta ao chat do Bubble App.

[Tudo também]

E foi só o que digitei, incomodado com a limitação nos meus movimentos.

[Você pode falar ou está ocupado?]

[Posso, mas não repare qualquer demora. Estou indo para o trabalho], repliquei, buscando me posicionar melhor no assento. Precisei abrir os ombros para isso.

[Sem problemas. Seu nome é Daniel, correto?]

[Sim. E você... Thais?]

[Sim. Nunca gostei de usar nomes falsos! Hehe]

E eu nunca considerei usá-los, refleti.

[E você trabalha com o quê?], ela questionou em seguida.

[Sou jornalista]

[Ah, que legal!]

[Nem tanto, acredite! Hehe... E você?]

[Eu era professora]

[Era?]

[Sim. Vítima da nova leva de atualização nas escolas...]

Disso, eu estava por fora.

[Como assim? Por atualização você quer dizer...]

[Fui substituída por... um computador]

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