... 46 %

7 1 2

Nunca achei que fosse ficar feliz por ver tantas lâmpadas LED acesas.

O hall do Campo Azul do Bubble Camp era enorme. E, de algum modo, eu estava certo. O elevador desceu até lá — através de uma abertura perfeita no teto — e se projetou por uma sala vidrada. Quase um expositor. De lá, eu enxergava pessoas. Muitas. Outros campistas me esperavam com apreensão e curiosidade do lado de fora daquele aquário, por sua vez contido por paredes maiores. Esperei a porta se abrir e dei a volta no duto para me postar junto deles, saindo pelo que seria a parte de trás, quando finalmente ouvi as primeiras palavras em muitas horas; desde antes de sair de casa.

— Bem-vindo, Daniel! Eu sou o seu colega de quarto.

O dono da voz era um homem ruivo, mais alto e mais velho do que eu. Ele se postava na frente dos demais, o que me fez o tomar de certa forma como líder. Não podia estar mais enganado. Percebi tardiamente que os demais oscilavam seus olhos de mim para ele e que meu inquisidor tremia enquanto coçava a barba farta.

Como ninguém mais disse nada, resolvi perguntar.

— Oi... Como você sabe meu nome?

Ele engoliu seco e apontou por cima da minha cabeça.

Claro.

Sobre o elevador, afixado na estruturas de vidro, havia um grande painel digital.

Daniel (28). Colega de quarto de: Ricardo (53).

Sob luzes fortes e olhares projetados por todos os lados, eu fiz a conexão mais óbvia.

— Você é o Ricardo? — apontei para o homem de cabelo laranja.

— Sim.

— Então prazer.

Fui até ele e apertei sua mão gelada.

— Você é o responsável por me apresentar o lugar?

Os demais — umas trinta pessoas aproximadamente — seguiam nos encarando. Eu mesmo comecei a me sentir nervoso.

— Isso — ele ainda olhava para o chão, desviando o olhar.

— E quando começamos?

— Assim que você estiver pronto.

— Que tal agora?

[...]

Longe dos outros, o Ricardo era um adulto normal. Tinha apenas um grau elevado de timidez, e eu não podia culpá-lo. Eu mesmo tinha levado anos para conseguir falar com estranhos. E outros vários para me controlar e discursar em público; isso que era comunicador, formado em jornalismo

Como ficaria sabendo mais para frente, meu colega de quarto trabalhava com sistemas de informação, tinha 53 anos de idade e vinha de uma cidade vizinha à minha. Era solteiro e filho único, assim como eu, em uma sociedade cada vez menos parental. Cada vez menos ligada a relacionamentos de qualquer espécie. Trabalhou a vida inteira praticamente em contato com a tecnologia e, talvez por isso, fosse tão acanhado. Tinha chegado naquele mesmo dia ao Campo Azul e esperava ansiosamente, desde então, para descobrir com quem passaria o maior tempo daquela experiência.

Eu torcia — assim como ele mesmo deveria torcer — para que nos déssemos bem.

Sem dizer mais nada, ele me guiou por entre as pessoas, muitas das quais me cumprimentaram com sorrisos e frases de boas-vindas. Alguns metros em frente, resolvi novamente quebrar o gelo.

— Aqui é o hall principal, correto?

— Isso — ele notoriamente estava aliviado por não ser mais o centro das atenções. — Aqui é aonde todos chegam, onde tudo começa. Ali — disse apontando para o lado oposto ao do elevador, na outra extremidade da sala — é onde fazemos as refeições.

Bubble AppOnde as histórias ganham vida. Descobre agora