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Algo estava errado.

Abri os olhos na madrugada e o ar pareceu zumbir ao meu redor. Estática. Presságio. Nunca fui de esoterismos, mas podia jurar que a energia do mundo não fluía de acordo naquele momento. Havia uma aura espessa. Um clima tangível que pairava sobre tudo.

Teria sido isso que me acordou? Ou alguma noção de destino, uma cruel coincidência? Porque o despertador não foi. Não àquela hora.

Coloquei-me alerta.

Como sempre ao acordar, passei os dedos apressados no móvel ao lado da cama e senti — mais do que ouvi — algo ser derrubado no chão. O relógio. Não dei bola. Alcancei o celular e liguei sua tela. Lá, uma série de notificações me esperava. Menções e destaques em redes sociais, ligações perdidas (a maioria da Sabrina), mensagens por responder. O chat no Bubble App também piscava...

Sem saber por onde começar, cliquei sobre um dos avisos. O primeiro, provavelmente.

E não me lembro de muito mais depois disso.

Quando dei por mim, já estava entrando pela porta da Rede Cidade, correndo, vestido com uma roupa qualquer — não importava. Pisava sobre o tapete de boas-vindas da empresa e passava a passos largos pela recepção, já repleta de pessoas, querendo profundamente crer que aquilo tudo era mentira.

[...]

Não posso descrever como a cidade estava ou como as pessoas reagiram ao longo do meu percurso até o trabalho, pois eu de fato não as notei. Não quis, não pude. Fui abraçado por uma espécie de estado catatônico ao levantar da cama; encarcerado em uma zona de silêncio própria. Meu coração bombeava sangue alto demais e nada além conseguia penetrar por meus ouvidos. Meus globos oculares — que não conseguiam esquecer as imagens vistas no celular — se transformaram em duas esferas sem foco algum. Quase inúteis.

Aquelas manchetes...

Só recobrei de fato certa dose de consciência — e senti parte do peso dos eventos das últimas horas — quando rostos conhecidos passaram por mim sem dizer palavra. Tinham as mãos na boca, os olhos arregalados. Alguns — vários — estavam sentados, ou jogados no chão, pura e simplesmente. Muitos fumavam um cigarro atrás do outro. Outros, ainda, traziam os braços na cabeça em sinal de total desespero, sem nenhum pudor ou vergonha.

A maioria chorava copiosamente.

Dessas reações, sim, eu me recordo.

E bem.

Dentro de mim, gostaria de acreditar que o sentimento representado ali, por aqueles vários profissionais da imprensa, era geral. Algo global.

Que se espalhava por todas as ruas da cidade.

Mas eu não podia falar pelo mundo todo, infelizmente.

URGENTE: Bombeiros ainda tentam controlar o fogo no estádio — era o que eu conseguia ler no monitor gigante e sem volume na entrada da Rede.

Imagens de dor. De horror. O fogo ardendo na noite. A incapacidade humana de controlar o caos, de entender o caos. Havia pessoas ali, nos flashes ao vivo ainda na escuridão da madrugada. Nem bem quatro horas da manhã e parecia que mais ninguém dormia no mundo. Principalmente nós, os jornalistas, despertos e atentos. Envoltos em pesar, mas dispostos a trabalhar e a cobrir da melhor forma possível o evento.

O atentado.

Terror.

Reconheci o âncora nas imagens exibidas no hall principal e corri para o "Estúdio 2", onde aquele programa era gravado. Cruzei o caminho de outros colegas cabisbaixos. Os que me cumprimentaram, mesmo sem fingir animosidade, não fizeram questão alguma de reparar meus trajes. Meu cabelo. O choro marcado em meu rosto ou minha cara de sono.

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