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— Matéria urgente, né? — eu disse para a Sabrina, assim que entrei em sua sala.

Ela estava sentada atrás de uma mesa de MDP branco, parcialmente escondida pela pilha de papéis perfeitamente alinhados que nunca conseguia reduzir. Em sua frente, ainda, jazia uma pequena placa de latão prateado. Sabrina R. Leme — Diretora de Redação.

Jamais me acostumaria com aquilo.

Como bônus pelo cargo que ocupava, as paredes e a porta de vidro de seu escritório que lhe garantiam visão e controle de todas as editorias da Rede Cidade, ao mesmo tempo que poucos momentos de paz ou de privacidade.

— Agradeça que você, pelo menos, tem um trabalho — rebateu ela, áspera, assinando um último documento.

— Engraçadinha.

— Você não ia passar aqui ontem?

— Ia, mas o meu... editor me liberou. Vou ter que falar do Tiago, viu? Com todo o respeito, não cursei quatro anos de jornalismo pra bater foto de celebridade. Você sabe disso melhor do que ninguém.

— O Tiago está se virando como pode, Daniel. Você precisa entender.

— Sei disso. Todos estamos — concordei, sentindo o bolso da calça jeans vibrar.

Saquei o celular. Não era nada.

Dessa vez, apenas a ansiedade e o vício das notificações da tecnologia.

— Mas você não parece estar preocupado de verdade — interpelou ela.

— O que você quer dizer com isso?

Tarde demais. Caí na armadilha.

Com certa demora, fui atingido pelo tom de sua voz e soube imediatamente para aonde a conversa apontava.

— O de sempre. Nada novo — ela balançou os ombros, dando tempo para que nós dois nos preparássemos. — Você sabe que a Rede está cortando custos onde pode, Dani. Inclusive funcionários.

— Ei, eu enxergo, esqueceu? — protestei, sem conseguir conter o meio riso involuntário que surgiu em meus lábios. — Já vi dias melhores por aqui. E já tive mais colegas também.

— Então... — ela retomou a fala. E repetiu, pela segunda vez em poucos minutos, quase que a mesma sentença: — Você devia pelo menos ficar feliz por manter o seu emprego.

Firmei meu olhar nela.

— E isso implica exatamente em...?

— Ser profissional, não reclamar, não fazer cara feia, não se atrasar, não sumir... Caramba, eu não sou sua mãe, Daniel Mattos!

— E eu só estava fazendo um lanche, Sabrina Leme!

Ah, o poder dos nomes inteiros...

Parecíamos duas crianças brigando, tinha consciência disso. Mas realmente: o que eu havia feito de errado? Havia motivo para tanto?

Ela parou de mexer nas folhas em sua frente e largou a caneta de tinta azul. Depois, expirou com força todo os ar dos pulmões, fazendo os ombros tombarem em sinal de cansaço.

— Por que você acha que eu liguei ontem?

— Para me pedir uma matéria?

— Sua velha mania de responder perguntas com novas perguntas — foi a vez dela rir.

"Aprendi com você", pensei sem acrescentar.

Algo chamou sua atenção junto à porta e ela olhou para lá antes de continuar, baixando consideravelmente o volume da conversa ao fazê-lo.

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