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Levantei outra vez, esfregando os olhos. Segui em modo automático até estar frente a frente com um patético café da manhã em um inteiramente novo e medíocre dia. Dei um gole no suco de polpa. Laranja. Sem açúcar, pelo menos de acordo com a embalagem de papelão. Mordi o sanduíche frio de queijo industrializado e não senti gosto algum.

Já tinha virado rotina.

Mesmo assim o mastiguei, imaginando outro cardápio.

[Falando com muita gente por aqui?], a Rebecca perguntou.

Ela era minha mais nova amiga no aplicativo; tínhamos nos adicionado há pouco mais de uma semana. Mesmo assim, já era bastante fácil — e natural — sentir certa dose de intimidade entre nós. Nossas conversas simplesmente fluíam. Leves e descomplicadas.

[Bom dia para você também], repliquei.

Um beep se fez ouvir junto de um pequeno aviso que surgiu na tela do meu telefone.

Você acaba de ganhar a badge "1 mês no Bubble".

Um mês. Como o tempo passava rápido...

[É. Bom dia! Hahaha]

Não escondi o sorriso no rosto. Ela aparentava ser tão... atraente.

Fazê-la rir havia se tornado um dos meus mais gratificantes objetivos.

[Respondendo à sua pergunta: não. Confesso que tenho um pouco de preguiça de começar novas conversas! Hahaha]

[Veja você! Preguiça de fazer AMIGOS! Onde isso irá parar, Daniel? Hahahahaha]

Pois é. Isso eu também gostaria de saber.

[Mas eu respondo todo mundo, eu juro! Hahaha], e era verdade.

A culpa não era minha — ou só minha, ao menos — se alguns assuntos simplesmente não tinham continuidade.

[Entendi, entendi! Eu dei sorte, então! Haha]

[Deu! Hahahaha]

O mecanismo para buscar pessoas e começar conversas era fácil e bastante comum. Você precisava apenas acessar o menu do Bubble App e selecionar alguns parâmetros, como idade e cidade, para restringir a busca. Ou apenas clicar em "buscar", sem critério algum, para ter um resultado genérico, ainda que de acordo com as suas #Tags. Sobre elas, ainda, você podia forçar o algoritmo em uma busca exclusiva. Como #Games, por exemplo, que foi como cheguei até a Rebecca. Isso faria com que o aplicativo reconhecesse sua afinidade e priorizasse a procura por pessoas que também gostassem de jogos.

Respeitando, claro, as mesmas #Aversões.

Depois de algum tempo de uso, pude quase confirmar minha teoria inicial, sobre o cruzamento de dados e a teoria das "colunas" do App. Não falei com ninguém que tivesse por #Interesse nenhuma das minhas #Aversões, e imaginei que a recíproca deveria ser verdadeira. Tomei por verdade, então. As #Tags não poderiam coincidir em locais opostos, se não nada de conversa ou trocas — serviços, produtos...

Bastava clicar em "iniciar chat". E, aí, era com você.

Com vocês, no caso.

[E você? Muitos amigos?], questionei.

[Estou falando com outras pessoas sim. Mas principalmente com um jornalista chato e tal...]

Eu e ela éramos de cidades diferentes, e bem distantes uma da outra, tínhamos descoberto. Quase de extremos opostos no estado. Alguns meses mais nova do que eu, ela vinha de um mundo semelhante: a publicidade. Trabalhava de casa, como freelancer. algo que eu jamais julgaria possível fazer. De acordo com a foto do seu avatar, ela era uma garota bonita, além de interessante — até mesmo por suas #Tags. Mas namorava. Ou dizia namorar. Talvez por isso eu tenha decidido focar inteiramente em criar uma amizade, nada mais; já que tínhamos tudo para nos darmos bem.

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