— Você, por acaso, sabe ler mentes?

Ganho um sorriso e então já começo a traçar a nova rota e dizer as instruções e direções que ela deverá seguir.

O resto do dia passou rápido, e como previsto, começamos a encontrar outros navios, contudo nenhum dava atenção para nós. Mesmo com todos os cinco trabalhando sem muito descanso no barco pequeno, mantínhamos o ritmo até a lua estar alta no céu. Foi quando decidiram que precisávamos descansar e descemos a âncora para parar por algumas horas, e depois de comer eles se arrumam ali mesmo no convés, apagando tudo para ter algumas horas de sono.

Resolvo ficar de vigia no primeiro turno enquanto eles descansam. Não estava com sono e vários pensamentos rondavam minha mente, eu sabia que eles não iriam parar tão cedo, e ouvindo o mar calmo eu vasculho o céu, me sentando na amurada baixa.

É um péssimo dia para observar as estrelas, a lua estava em seu ápice, brilhando em meio a noite escura e ofuscando os pontinhos brilhantes que faziam eu me perder em meio aos devaneios mais longos. Esse brilho pálido sobre a água não me ajuda em nada, não quando me faz lembrar com tanta clareza daquela noite, a última noite. Não importa o quanto eu me ocupe, meus pensamentos sempre voltam para Lee Seokmin em um ciclo vicioso.

A verdade é que estou com medo. Medo de chegar e me ver sem alternativa, sem outro lugar para ir, sem nenhuma esperança de encontrá-lo em toda essa imensidão azul. A marinha deve tê-los atacado, sem sombra de dúvida, só posso rezar para que esteja bem e pedir para o universo me levar direto para ele.

Não queria depender tanto assim de alguém, mas conviver com essa dúvida está me corroendo.

Preciso saber que tudo está bem, e que essa parte da minha vida, essa parte recente, mas tão querida e irreal, não desmoronou.

Meus olhos focam no horizonte, procurando me perder ali para passar o tempo. Eu esperava não ver nada além da escuridão sem fim, mas tudo o que eu conseguia distinguir era um grande navio que vinha em nossa direção a oeste e aquilo era muito real para um mero devaneio.

O fogo o torna visível, e as cores e a bandeira eram inconfundíveis. Vermelho, a cor do reino de Joseon. Foi o que bastou para eu descer da amurada e acordar o meu pequeno grupo sem muita calma.

Jingtian foi o primeiro a acordar, se levantando com um gritinho. Ele devia estar sonhando. Logo os outros reclamam e um por um tentam entender o porquê os acordei tão cedo.

— Navio da marinha, se aproximando rápido. — Yuta confirma para Ruby, que por sua vez, me encara com os olhos arregalados. — Estão fazendo sinais, dizendo que não irão atacar, mas sim subir a bordo.

— Meninos me ajudem. — Ela os chama e me puxa pelo braço para a parte inferior do veleiro.

A parte de baixo era puro entulho. Caixas velhas, madeira apodrecendo e um bote muito pequeno. Nada além disso. Ruby aponta para o bote e os meninos assentem, começando a arregaçar as mangas para então mover o bote e revelar uma fenda espaçosa o suficiente para uma pessoa descer ali e ficar encolhida.

Ergo as sobrancelhas e ganho um sorrisinho dela, que assente e aponta novamente para o buraco.

Com um suspiro eu desço, não havia outra alternativa e estávamos sem tempo. Me abaixo esperando que me fechem ali e assim eles fazem.

Só me resta a incerteza no momento. Ouço os passos a distância e isso deixa de ser um conforto quando consigo perceber que não são só os quatro lá em cima.

— O que os senhores fazem tão longe da costa? — Ouço a voz firme, estava muito distantes, mas era o suficiente para conseguir entender.

— O tempo começou a fechar e tivemos que desviar o curso. — Tento me concentrar para ouvir a voz de Dongmyeong e ao que tudo indica eles acreditaram.

Mais nada foi dito, pelo menos, nada que eu tenha conseguido entender. Logo eles começam a vasculhar o barco, fazendo perguntas aleatórias sobre a estrutura. Minhas pernas doem pelo tempo abaixada e só consigo pensar no azar que eu tive desde que saí de Joseon.

Ouço passos, bem mais próximos desta vez, três pessoas talvez, e a voz de Ruby logo soa pelo amplo cômodo.

— Como eu disse: nada que valia a pena ver.

— Pode nos deixar conversar a sós? — Um homem pergunto e céus, eu conhecia aquela voz e como eu conhecia.

— Fiquem a vontade, senhores. — Os passos de Ruby subindo as escadas são tudo o que consigo ouvir.

— Olha Jaehwan. Sei que ela é sua irmã e tudo o que aconteceu foi muito pesado, mas já faz um mês que a procuramos sem sucesso algum e sem nenhuma pista de onde ela possa estar. — O homem com a voz firme diz, calmo e sereno como uma pessoa que já encarou muita coisa na vida. Ao contrário de mim que já não conseguia controlar minha respiração.

— Algo me disse que dessa vez seria diferente. — O ouço suspirar, consigo perfeitamente imaginar que ele passa a mão pelo cabelo, frustrado e sem saída. — Eu não quero desistir, se qualquer outro encontrar ela... Só posso esperar o pior e eu não vou perder outra pessoa importante.

— Sabe que se a encontrarem ela será condenada à forca, não sabe?

— Sei, MinHo e eu não posso evitar isso. Mais cedo ou mais tarde ela vai acabar tendo o mesmo destino que o meu pai, por isso tenho que encontrá-la, para amenizar a situação. — Sua voz soa melancólica, triste eu diria.

— Meu amigo, isso é impossível. Sabe como o reino trata os casos de pirataria. Se quisesse mesmo proteger sua irmã, não teria a entregado. — Sim, sim e sim! Eu queria gritar e esmurrar aquele bote que me prendia ali em meu esconderijo arranjado, mas me contento em ficar em silêncio e esperar que eles vão embora.

Meus parabéns universo, não achei que se superaria de uma forma tão estrondosa.

— Eu só estava fazendo o que eu achava que era certo e não vou desistir de encontrá-la. Não posso desistir depois do que fiz... Talvez eu deva tentar conversar com o almirante novamente.

— Eu entendo, amigo. Não estou falando que foi errado, mas os anos servindo foram o suficiente para me fazer perceber que nós não temos opção a não ser seguir ordens. —  Seus passos ecoam, perigosamente perto de onde estou. — Vamos, o almirante pediu para não demorar aqui. Temos que ir para o sul o quanto antes.

Jaehwan concorda e MinHo se afasta, já não ouço mais os passos depois de alguns muitos segundos. E só me resta esperar em meio aquele lugar pequeno, úmido e escuro, sentindo todos os meus sentimentos borbulhando em um turbilhão de confusão.

Não demorou para os meninos voltarem e me tirarem dali. Aceito a ajuda de Jingtian, que parecia muito inseguro em me oferecer sua mão, e só consigo respirar fundo e subir para o convés, sendo abraçada pelo vento frio e a imagem do grande navio indo embora.

— Está tudo bem? — Yuta pergunta e eu assinto sem querer comentar sobre o que aconteceu.

— Tem certeza? Parece que uma carroça te atropelou. — O comentário de Ruby me arranca um sorriso, que não dura muito, não quando tudo o que consigo focar é a figura de meu irmão na popa do navio se afastando cada vez mais.

— Você o conhece? — Dongju pisca seus grandes olhos quando indaga e todos os olhares são direcionados a mim.

Quando já estava longe o suficiente Jaehwan se vira, ainda sim consegui ver a surpresa em seu rosto distante, banhado pela luz do fogo. Absolutamente tudo congelou em medo dentro de mim, mas ele não fez nada além de ficar ali, me encarando até que já não conseguia mais distinguir sua figura.

— Ele é meu irmão mais novo.

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