Plano.

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Alinhados em fila, eu e meu irmão aguardávamos sentados em sua cama a aula que América começaria a dar em minutos. Meus pés batiam impacientes ao chão, já ele tinha um tique na mão e inquietos a observávamos atentos.

–Vamos para a Terra. – Ela sorriu, com seus pequenos lábios vermelhos, cheia de uma animação que eu ainda não compreendia.

–Como você propõe isso? – O asiático ergueu uma das sobrancelhas, já sabendo dos cálculos matemáticos necessários para que aquilo ocorresse e, por conseguinte, dos erros que ela havia cometido.

Carregava em meu peito um orgulho enorme da inteligência do meu meio irmão, tal que era sempre desafiada pelos professores e colegas. Aquela era uma expressão comum, uma de já saber a resposta antes da pergunta, uma de segurança.

–Analisei o mapa da nave um milhão de vezes, tentando criar uma tática de destruição em massa ou procurando uma forma de voltar para casa. Vamos usar do meu plano de retorno como um de destruição em massa, duas fatalidades com apenas uma bala. Vocês têm pequenas naves emergências que cabem cerca de duas pessoas no final da nave, são cápsulas redondas de controle automático gerido por um código de segurança. Dependendo da forma como a nave e a Terra estiverem alinhadas, existem duas dessas cápsulas com combustível suficiente para que cheguemos ao meu planeta de forma segura. A janela de tempo é bem apertada, mas pela rotação da Terra, temos duas semanas para cair sob a minha vila. – Ela continuou seu discurso.

Era simples assim?

Virei–me para Caleb, que manteve a expressão. Ele sabia dos furos no plano, ele estava prestes a enumerar todos. Então, virei–me para a ruiva e a certeza em seus olhos não diminuiu, ela sabia como resolver todos, ou, pelo menos, achava que sabia.

–Existem tantos problemas com essa sua ideia idiota. – Meu irmão bufou, insatisfeito, podia sentir uma ponta de raiva crescente em seu peito.

América abriu o sorriso, aceitando o desafio. Fazendo com que uma fumaça negra em ódio saísse das orelhas de Caleb, que continuou a falar:

–Como vamos chegar as naves?

–Elas são emergenciais, meu caro Caleb. Existem várias formas distintas de conseguir chegar até elas. Podemos criar uma emergência, por exemplo, mas, já que precisaremos disso no futuro, eu recomendaria que a filha da chefe de segurança do sistema nos concedesse a passagem. – A calma em sua voz, o tom de zombaria, aquilo era diversão demais para o que eu conseguia assistir.

Mas, como em um filme de ação, meus olhos não sairiam da tela.

O asiático se virou para mim furioso.

–Ela tem razão... Minha mãe detém o controle das naves. Precisaríamos conseguir seu passe ou a sua identidade. No papel, é uma ideia bem concreta e correta, coisa que para nós seria até bem simples de ser conseguida – Completei, com as poucas informações que detinha.

–Mesmo que tenhamos acesso as naves, temos de programá-las para ir a Terra! – Ele protestou.

–Sim! Um programa que Blue comanda. Se tivermos acesso ao seu computador, seria simples modificar o programa. E, ainda que isso não funcione, as naves têm uma sala de controle, que são liberadas com o uso do passe dela. – América seguiu com suas explicações que começavam a soar obvias para mim.

–Não teríamos como voltar. – Ele usou da sua última tacada, e sabia disso pelo desespero em seus olhos.

–Em qual momento eu mencionei um retorno? Disse que iriamos a Terra, não que voltaríamos dela; sei muito bem da escassez de combustível das cápsulas e que levariam anos para produzirmos tal no meu planeta. – A ruiva fechou seu sorriso. – Além do mais, o plano não é que vocês voltem, mas que levemos a guerra até um território que o meu povo domina.

–O que você quer dizer com isso? – Seus olhos já apertados semicerraram.

–Caleb, todo esse plano se baseia em ser quem somos, em privilégios. Se descermos até a Terra, minha mãe mandaria toda a cavalaria em nossa busca, e lá, em exército, os terráqueos ganhariam. É brilhante. – Sorri.

–Você está me dizendo que vamos invadir a sala da sua mãe, alterar códigos secretos e ultraprotegidos, roubar a identificação dela, roubar naves, fugir para a Terra um planeta novo e desconhecido sem a pretensão de volta, assumindo que não vamos ser acusados de traição, mas sim que sua mãe ficará preocupada o suficiente para mandar um exército de busca, só para podermos aniquilar uma pequena parte da população com a ajuda de um povo que colocou uma espiã em nossa nave, uma que falhou e que também pode ser julgada por isso? – Ele segurou minha mão.

–Sim, é exatamente isso. – Sorri.

–Você pegou muito bem a essência. – Ela riu.

–Vocês duas são completamente insanas, esse plano é falho e baseado em loucuras absurdas! – Ele fez que não com a cabeça, compulsivamente, quase como se quisesse expulsar a ideia dali.

–Você vem junto ou não? – Insatisfeita, América cruzou os braços.

–Vocês têm alguma chance sem mim? – Sua feição de desespero ainda me parecia um problema.

–Nenhuma. – O respondi.

–Só você sabe como hackear o computador e mudar o código. – América continuou.

–E somos uma equipe, Caleb. Eu não tenho a menor intenção de salvar o sistema solar sem a ajuda do meu irmão. Ficando aqui você só arriscaria ser acusado de ser meu cúmplice... E o nosso plano sempre foi ir para a Terra, lembra?

–Morar juntos em uma casa com uma biblioteca imensa enquanto eu acho alguma esposa e você trabalha em entretenimento? – Ele me olhou fundo nos olhos, procurando algum tipo de reafirmação, e eu assenti, já que sabia que não havia mais nada que se fazer. Meu irmão respirou fundo e nos alegrou – Então, como vamos invadir a sala da sua mãe? Ela é a chefe de segurança... – Ele sorriu.

–Sim, mas eu sou a filha dela. – Ergui uma das sobrancelhas, já sabendo exatamente os nossos próximos passos para a execução completa da ida até a Terra.

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