Promessa Sincera.

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Na manhã seguinte, a minha cabeça doía. Com toda certeza, aquela dor derivava de todas as informações que haviam sido passadas para mim na tarde do dia anterior.

Acordei com uma mensagem de América, me exigindo que fosse ao seu quarto antes da escola. Ainda eram sete horas da manhã, mas já estava acordada, não havia porque continuar esperando. Era uma perda de tempo tentar dormir uma vez que meus olhos já estavam abertos.

Abri meu guarda–roupas, um vestido solto e sapatilhas abertas aos pés me chamaram, peguei ambos e fui ao banheiro, tomando minha ducha. Deslizei para dentro da roupa, avisei a ruiva que já me dirigia ao seu quarto, escovei os dentes, domei meu cabelo e segui a andar pela nave.

América me esperava ao lado de fora, com mãos aflitas e cabeça baixa, sentada, recostada a parede. Assim que a vi, sabia que algo não estava certo, que ela precisava de mim. Corri, mesmo que em um pequeno espaço de todo o meu trajeto, a abracei forte, a retirando do chão, com braços carinhosos. Ela se ajeitou ali dentro, suspirou, se acalmou.

–O que está acontecendo? – Beijei o topo de sua cabeça.

–Tenho um péssimo pressentimento. Falando assim, em voz alta, isso parece meio idiota, mas... Sinto que estamos fadados a morrer, em pouco tempo, e esse destino tem ligação com a nossa conexão. – Ela me olhou fundo nos olhos, os penetrando.

Estava séria, demais. Com tudo que havíamos passado, com tudo que estávamos descobrindo, eu não sabia se havia razões para duvidar dela. Ainda sim, franzi o cenho.

–Na Terra, – ela continuou – seus sentidos são tudo que você precisa para sobreviver. Sua intuição tem de ser seguida, tem de ser aguçada, já que qualquer passo em falso pode ser fatal. Você tinha de estar conectado com a floresta para sobreviver, ela era um membro seu, uma parte importante do seu individuo. Se a floresta estava sendo ameaçada, todos nós sentíamos. Me orgulho de sempre ter sido sensível ao lugar que vivi... Eu tenho certeza, Sky.

Um frio me subiu a espinha.

Enterrei seu rosto dentro do meu abraço, não queria que ela visse que estava assustada.

A ruiva soltou um gemido seco e passou seus finos braços ao meu redor, me apertando.

Ficamos naquele abraço por algum tempo. Ambas precisavam dele. Enfim, ela me soltou e grunhiu. Com meus braços ao seu envolto, América levantou a cabeça, fazendo com que seus grandes e profundos olhos azuis me tocassem novamente.

–Se tudo acabar, tem algo que eu não posso deixar de dizer... de fazer... – Seus pequenos lábios cheios se espremeram juntos.

–Do que você está falando? Nada vai acabar. – Afaguei seu cabelo.

Não sabia se falava aquilo para mim ou para ela.

–Sky... Eu não sei o que é isso, não há como definir. O que sei é que... O que eu sinto, não tem conexão com sermos um par ou coisas físicas que nos foram explicadas ontem, o que eu sinto é algo mais. Estou me apaixonando por você, a cada dia mais rapidamente e lentamente. Quero fazer isso, não importa o que isso seja.

Aquelas palavras me atingiram como um baque. Eu sabia exatamente o que ela estava falando, porque sentia o mesmo, sentia a atração astronômica, a gravidade.

O problema é que não tinha as certezas que ela tinha.

Para mim, aqueles sentimentos podiam ser por toda a situação de par. Poderíamos estar programadas para ficar juntas, em uma sensação ilusória de paixão, ativando nossos "poderes".

Era um contraste com o tanto que sonhava com aquela garota, presentes desde o primeiro dia em minha mente. A cada remexida do seu cabelo ou passo rebolado era um suspiro diferente, um pouco de ar que ela me arrancava.

Meu corpo, minha mente pediam por ela. Talvez, pediam demais.

Notei que estava calada por algum tempo, a encarando, sem a responder.

–Você não sente isso por mim. – A ruiva abaixou a cabeça e me empurrou.

Sabia o quanto estava a machucando, sabia porque aquilo me cortava em pedaços.

–América! – Segurei seu braço, em um espasmo para acabar com a dor. Ela girou, ficando novamente em meu abraço – Não é isso, é que...

Não havia uma maneira de formular uma frase sincera que não a arrancasse o coração. Então, ponderei.

Seus olhos ficaram ferozes. Segurei suas bochechas e a beijei, a pressionando contra a parede. Ela se derreteu, se segurando em mim com força, precisando do apoio. Podia sentir o começo de algo ali.

–Eles estão nos vendo. – Ela afastou o rosto vermelho, de forma tímida.

–Estão? – Levantei a minha cabeça, olhando para os lados – Você está vendo isso, mãe? – Ergui ambas as mãos, mostrando o dedo do meio, virando para todos os lados e câmeras que poderiam estar ali, então, me voltei para ela, que ria as gargalhadas. Juntei nossas testas e sorri – Eu não ligo mais para esse tipo de coisa, só me importo com você.

–Promete? – Seus olhos azuis vasculhavam algo dentro de mim.

–Prometo. – Beijei sua testa.

Não sabia se era uma promessa sincera.

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