Primeiro dia.

4 0 0

Era o primeiro dia.

Na noite seguinte a Terra estaria alinhada perfeitamente com a nave e, consequentemente, era o nosso dia de partida.

Porém, naquele dia, tínhamos de executar a primeira parte do plano com perfeição para que nada desse errado com a segunda parte do mesmo.

E tudo dependia de mim, em tese, porque também dependia do quão eficaz ficaria a mistura química que Caleb havia produzido.

Para tirar a minha mãe de sua sala, além de nos dar acesso à mesma, eu tinha de ficar doente. Tão doente que América e meu irmão conseguissem correr até a sala de minha mãe, a retirar de lá em desespero tamanho que ela não notasse que o asiático permaneceu, mexendo em seus computadores. Mas não tão doente que eu não pudesse fazer uma viagem intergaláctica pouco mais de 24 horas depois.

Meu irmão, então, seguiu para o laboratório de química e preparou o que, segundo ele, me faria sentir náuseas fortes, com direitos a desmaios, mas que o atendimento médico da nave lidaria em minutos. Dessa forma eu poderia descansar nas horas restantes e a nossa fuga seria perfeita.

Confiava nele, confiava no plano de América, confiava em mim e nos meus estranhos poderes, mas não havia como negar o meu medo.

Durante toda a noite, ficara acordada, repassando os cenários em minha cabeça, orando para qualquer que fosse os deuses que eu conhecesse que tudo funcionasse, ainda que não acreditasse em toda essa baboseira.

Só que, parando bem para pensar, eu não sabia mais no que acreditar.

O relógio soou, 7 da manhã. Peguei o frasco pequeno e verde e o balancei em meus longos dedos. Minha mão tremia, ineficaz, fraca.

Tudo dependia de mim.

Tudo dependia de virar aquele frasco em minha boca e esperar pelo pior, já que quanto pior, naquela situação, melhor.

Respirei fundo.

"Você é forte, Sky". Abri o frasco.

O cheiro era horrível, como em todas aquelas poções mágicas de filmes de princesas. E essa com certeza não era um filme de princesa.

Minha vida havia se tornado um clichê idiota.

Virei o frasco na minha boca. O gosto amargo e terroso desceu e se marcou em minha garganta. Tomei um pouco de água que sempre descansava ao meu lado na cama.

Não senti nada. E não deveria, até depois do início das aulas.

Coloquei roupas confortáveis, uma blusa solta preta e uma calça caqui, além de tênis. Não queria passar mal em roupas elaboradas.

Arrumei uma bolsa com todas as coisas que julguei importantes, ao mesmo tempo em que era consumida por uma devastadora angústia.

Vocês já se mudaram de casa? Se sim, conhecem a nostalgia de ir dentre todas as suas posses, de reencontrar lembranças e sensações já muito esquecidas em meio a roupas, fotos e pequenas bugigangas.

Lembrei–me de como nunca me dei bem com a minha mãe, mas a dei créditos por ser tão parecida comigo. Lembrei–me de quando Caleb se tornou meu irmão e do vestido que usei. Lembrei–me de ver América pela primeira vez. Separei tudo importante em cima da cama, junto com cada uma dessas impressões na minha mente e coloquei tudo dentro da minha pequena e insuficiente bolsa.

Nada nunca seria como já foi.

Era estranho pensar no quanto a ruiva havia jogado o meu mundo inteiro para o alto, trocando tudo de lugar. Mas era ainda mais estranho pensar no quanto esse mundo estava chegando a um fim, talvez literalmente.

Respirei fundo.

Guardei a bolsa no fundo do armário.

Segurei o choro mais uma vez.

Segui para o banheiro, para a cafeteria, para a aula.

Estávamos os três em um silêncio perturbador, mas ninguém iria o quebrar, até que...

–Caleb? – A ruiva apertou a mão dele cuidadosamente.

–Sim? – Ele a observou, com carinho.

–Você fez a substância com quais medidas?

–Para um ser humano normal para as proporções da Sky.

–Sky é uma alienígena, Caleb! – a sua voz se exaltou, mas não a ponto de gritar.

Os olhos dos dois se viraram para mim, e eu não sabia o porquê, mas pelo desespero que havia ali, algo tinha de estar errado.

Senti algo gelado escorrer sob a minha boca, e, ao limpar, notei que era sangue.

–O que está acontecendo?

Não houve tempo nem ao menos para que eu me desesperasse.

Um chiado conhecido tomou conta dos meus ouvidos, me tomando uma dor de cabeça insuportável. Caí em meus joelhos.

A nave, toda a nave e seus números codificados e artificiais pulavam em minha cabeça, como se eu pudesse lê-los, em toda a sua majestade cheia de matrix.

Vocês já sentiram que iriam morrer?

Porque foi exatamente o que eu senti três segundos antes do universo inteiro se tornar um abismo negro e a minha consciência se esvair.

ExtraterrestreLeia esta história GRATUITAMENTE!