Minha Casa.

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Estava parada, estática, em pé, ao lado da grande cadeira de visitas. Não sabia se estava boquiaberta ou não. Meus sentidos falharam. Aquela era a rebelde?

Sua mão tremeu. Minha mãe saiu do seu lado e veio para o meu.

-Sky, não a deixe esperando.

Ergui a minha mão, olhando–a fundo dentro dos olhos. Caminhei para frente até que nossas mãos se tocassem.

Aquele dia, que tinha começado normal e se transmutado em um turbilhão de sensações esquisitas, ainda não havia acabado. Muito pelo contrário. Estava a me provar que coisas mais estranhas poderiam surgir, desde que, andasse com América.

Nossas palmas se tocaram. Então, em uma fração de segundos, algo mágico aconteceu.

O mundo a nossa volta não era mais a nave.

Primeiro, todos os cheiros deixaram de ser artificiais. Nunca havia sentido aquele cheiro antes. Era uma mistura de terra molhada com plantas secas, um odor úmido, agradável, que me fazia querer enrolar dentro de uma coberta. Então, tão de repente e lentamente quanto possível, o nosso entorno se transformou. Grandes árvores com grandes folhas e troncos grossos, uma escuridão intensa. Gotas caiam dos céus, pássaros cantavam ao fundo, alegres, molhados. Estávamos perdidas em uma profunda floresta, com folhas murchas ao chão de uma terra escura.

Durante todos os segundos daquele aperto de mão, presenciei algo mais real do que tudo que já tinha vivido em toda a minha vida. Aquela floresta, da qual nunca tinha visto, nem em meus mais profundos sonhos, era mais real do que a nave, ainda que surgisse de um acontecimento quase mágico.

Deveria estar apavorada, mas não estava. Era um lugar tão calmo, que me passava uma tranquilidade tão intensa... Não havia como ter medo.

Em susto, repuxei meu braço para trás. Boquiaberta, procurei algum sentido em seus olhos.

América tinha visto isso, não tinha? E, se tinha, isso acontecia sempre, não acontecia?

Seus grandes olhos abertos e azuis mostravam uma emoção universal. Ela estava apavorada.

Naquele mundo, isso não era assustador, mas nesse, sim. Senti o músculo das minhas coxas se apertarem em medo.

A troca de olhares começara a ficar esquisita, tínhamos de sair dali, tínhamos de falar a respeito.

Blue apenas se sentou em sua mesa, ignorando toda a estranheza da situação, me chamando. Entregou-me, então, um tablet novo. Ainda meio sem reação, o peguei e caminhei até fora da sala.

Sentei-me ao chão, a frente da porta, segurando um tablet e um notebook em meu colo, abraçando as pernas. América, sem piscar, com seus olhos bem abertos se sentou ao meu lado.

–Isso foi real? – estava fixada em um ponto invisível bem a nossa frente, não piscava.

–Foi... A coisa mais real que eu já vi e senti em toda a minha vida. O que era aquele cheiro de molhado? E aquelas árvores? Era tão pacífico...

Estava eufórica. Presa em um estado entre completamente apavorada e maravilhada com tudo aquilo. Escolhi me agarrar à sensação boa e continuar dali, seria o melhor para nós.

-Não vimos à mesma coisa. – ela segurou meu braço.

Era de se esperar que fossemos lá de novo, mas não fomos, aquela era uma conexão estranha.

–O que você viu? – estava cada vez mais intrigada com aquilo.

–Espaço... Planetas. Não havia ar. Era tudo tão negro, tão vazio, tão estrelado...

Aquilo só podia significar uma coisa:

–Você viu a minha casa! – gritamos, em uníssono.

Todas as pessoas ao nosso redor nos observaram, meio assustadas.

–Tenho que te levar ao seu quarto. – levantei-me, seria.

–Mas eu quero falar mais disso. – sua boca se comprimiu, e seus olhos, já grandes, se tornaram maiores.

Olhei para os lados. América juntou as sobrancelhas e sorriu, sabia que todos iriam bisbilhotar a nossa conversa depois daquele grito. O melhor a se fazer era seguir para um local fechado e tentar entender o que havia acabado de acontecer.

A ruiva se levantou, colocou seus longos cabelos intermináveis para trás e sorriu. Segurei seu pulso e coloquei sua mão sobre o tablet, que a reconheceria a partir daquele momento.

O vidro, antes fosco, se acendeu em um claro ciano, com os dizeres: Olá, América. Ainda meio hesitante, ela o segurou.

–Você vai precisar disso para todas as coisas. Isso é como uma identidade, uma chave, tudo que se imaginar. – sorri.

–É grande e... Pesado.

–Tem uma versão bem menor no seu quarto. Vamos ir para lá.

–Onde fica isso? – seus olhos viraram para o grande corredor a nossa frente, ela sabia o grande labirinto que iriamos enfrentar a partir dali.

–Tem uma espécie de GPS nisso.

–GPS? – seus olhos confusos se voltaram para mim.

Era como conversar com um homem das cavernas!

–Um mapa, disso você já deve ter ouvido falar, não é? – ela assentiu – Tudo bem, então é só você apertar aqui. – indiquei o GPS em seu tablet e com os dedos trêmulos, ela apertou.

A tela se tornou primeiro o exterior da nave, então foi diminuindo camadas até chegar a exata localização na qual estávamos. Um ponto vermelho indicava onde ela estava.

–Agora você só tem que mostrar aonde quer ir e seguir todas as instruções. Vai poder fazer isso sempre que quiser, a qualquer hora, nunca estará perdida. Pode, inclusive, me achar em toda a nave, se me procurar pelo nome.

América sorriu, então, como quem já entendeu tudo, indicou que queria seguir para seu quarto, um caminho verde foi mostrado pelos corredores da nave. Ela segurou meu braço e caminhou, me levando até lá.

Não havia como descrever o que eu sentia ao ser tocada, mesmo que assim, por ela. Era como viajar por um longo tempo e, só então, voltar a dormir em sua própria cama, em seu próprio quarto e usar o seu próprio banheiro. Ainda que fosse a primeira vez que eu sentisse tudo isso. 

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