Uma semana.

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–Nós vamos para a Terra. – Ela sorriu, inundada com uma animação eufórica que transbordava em seus grandes olhos azuis.

Havia mais de uma semana que América proferira seu longo monólogo sobre as dificuldades de se viver em seu planeta nativo. Então, a sua inesperada e afobada chegada em meu quarto me tomou de surpresa, mas não apenas de surpresa.

Seu sumiço me trouxe calmaria, mas também, turbulência. Isto porque América já havia se tornado sinônimo de problemas e, a sua distância, de paz.

Tanto silêncio me foi necessário para organizar a minha mente, agora, cheia de nave e suas particularidades, como todos os passos e inspiradas em todos os andares. Assim que aquilo já fazia parte de mim, todo aquele silêncio se tornou bagunça.

Uma vez que entendia um pouco do que podia fazer, e até como desligar os acontecimentos do quarto ao lado, minha mente, automaticamente, seguiu para o próximo assunto mais inquietante pendente.

A forma complexa como falava das coisas simples da vida. O colo nu do seu peito pintado em laranja. Suas singelas mordidas no lábio inferior. A forma como passava os dedos em suas métricas madeixas.

A amava. E, aceitar aquilo, era tanto minha sina como minha alegria.

Assim que a vi, correndo quarto a dentro com todas as respostas em suas mãos, somado a realização de noites atrás, tive um impulso, daqueles de filme.

Corri para seu quente abraço, agarrando seu ruivo cabelo ondulado e tocando seus avermelhados lábios.

Não havia mais como tentar fugir daquela realidade.

América era como o sol. E eu, a Terra. Todos os meus movimentos em elipse me prendiam a sua gravidade.

A beijei com a intensidade de um primeiro beijo, mas com um carinho já conhecido.

Quando seus grandes olhos azuis se voltaram a abrir, sorriram. Seguindo por se semicerrarem com suas arqueadas bochechas de um sorriso real. Por dias, aquela era a única visão que queria ter.

Estava finalmente bebendo um copo gelado de limonada, depois de semanas em seca pura.

Não me interessava pela Terra, pelo fim de nosso sistema como conhecido. Me interessava por ela, me instigava, me tirava do eixo, assim como me colocava nele.

Senti a necessidade de acelerar as coisas, aprofundá–las. A direcionei até a cama, com calmos passos, a deitando com carinho. Coloquei meu corpo sob o seu, segurando–o. Em um gemido leve, ela soltou todo o ar de seus pulmões, e inspirou com força.

A beijei com todo o calor que havia dentro do meu corpo, enquanto ela segurava meus longos e altos fios de cabelo da nuca, passando as unhas em meu pescoço. Perdi o controle sobre meus sentidos, ouvindo e sentindo toda a nave, mas em principal, a ela. Desci minhas carícias ao seu peito nu, a fazendo estremecer. Mas, ainda que entre essas carícias, a presença da minha mão em cima do fecho da sua calça, a assustou:

–Eu não posso fazer isso, Sky. – Ela segurou minha mão, respirando ofegante e com a cabeça baixa.

–Porque não? – Voltei–me para ela.

–Porque eu não estou na Terra. – Ela bufou, claramente decepcionada.

Retirei o meu corpo de cima do seu. Aquela informação era um choque não muito agradável. Sentei–me ao seu lado, olhando para o vazio da minha escrivaninha.

–Isso não é uma resposta satisfatória. – Suspirei.

–Não sei como explicar, não sei se você entenderia. – Ela se sentou ao meu lado.

Era claro o quanto aquilo havia a colocado para baixo.

Imaginar que apenas a tentativa de algo sexual a deixara assim, me fez triste. Machucar América era a última coisa que queria neste sistema.

–Você pode tentar, se quiser. – Virei–me para observá–la.

–São tantas coisas... Eu nunca fiz isto antes, e eu queria fazer em minha casa, entende? Em um lugar que eu me sinta segura e feliz. Não em uma carcaça de metal flutuando no espaço. Mas, também, todo o meu povo, minha família, minha casa estão sofrendo. Como eu posso passar por esse tipo de experiência, chegar a ter algum tipo de prazer sabendo que todos estão vivendo um inferno? Eu não posso, eu não consigo, eu não quero. – Ela segurou a minha mão.

Respirei fundo.

A entendia. Era estranho pensar na grandiosidade do que aquilo realmente significava para ela, ou, em me colocar em seu lugar. Mas, de todo, pensei que se meu irmão estivesse correndo o mínimo de perigo próximo ao que ela já havia me mostrado, coisas como aquela não passariam pela minha cabeça.

–Eu entendo. – Beijei sua testa, em um carinho. Então, tomei uma pausa. – Como vamos a Terra? – Suspirei.

Era a hora de mudar de assunto, e, algo tão importante e que a deixou tão animada me pareceu a opção mais certa a seguir.

–Onde está seu irmão? Ele é o único que vai poder me dizer se tudo isso que planejei é possível.

Seus olhos se encheram de felicidade novamente.

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