Cafeteria.

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O alarme tocou. Era mais uma manhã artificial. As luzes neon vibraram em roxo. Estava na hora de sair da cama.

Não queria sair dela, por vários motivos.

Deitada, em meus sonhos, estava na floresta, na cabana. O cheiro de chuva, as árvores altas com copas cheias que cobriam os céus, pássaros ao fundo, cantarolando felizmente. Não era a casa de América, era a minha. O meu porto seguro. Queria ficar para sempre.

Caso saísse dali, teria de enfrentar Caleb e suas intermináveis perguntas, além de cuidar de uma rebelde que exercia um poder enorme sobre mim.

Cama quente, confortável, não queria a abandonar, mas devia.

Levantei-me. Coloquei aquela negra calça apertada, qualquer blusa larga e cinza e um tênis de mesma cor. Meu guarda-roupa era extremamente monocromático. Coloquei o telefone no bolso, segurei meu notebook, ergui a cabeça e saí sem a menor vontade.

Caleb estava ali, me aguardando.

-Como foi?! – a pergunta saltou a sua boca antes mesmo de a porta se abrir por completo.

Não consegui racionar direito. Meus pés cambalearam para trás. Ele sorriu.

-Como você acha que isso vai me ajudar a te dar uma boa resposta? – saí através da porta.

-Me responda! – sua pequena mão segurou meu braço.

A floresta voltou a minha cabeça, assim como seus ombros desnudos, sua boca cheia e pequena. América era tudo, era única. Havia tantas coisas para contar... Desde aquela conexão esquisita que nos fez viajar, à forma esquisita que ela me fazia sentir, como se dentro do meu peito fosse quente apenas ao seu lado.

Ainda assim, não podia vocalizar todos aqueles sentimentos. Primeiro, pois não sabia exatamente como fazer aquilo, já que não sabia exatamente o que era aquilo. Segundo, porque algo em minha mente me dizia para esconder tudo, a qualquer custo.

Segui o meu instinto.

-Nada, ela é bem legal. Você vai gostar dela. – sorri.

-Você está escondendo algo. – ele ergueu uma das sobrancelhas.

Caleb sabia, mas não o que, então tudo estava bem. Ficou me observando durante algum tempo, enfim, notou que não conseguiria arrancar mais nada de mim. Suspirou e começou a caminhar.

O segui. Sabia que América tinha de estar na cafeteria, caso contrário, era a hora de ir atrás dela.

Assim que o corredor acabou, viramos à direita. Então, lá na frente, estava América. Seus longos cabelos ruivos estavam soltos, balançando a medida que seu quadril ia de um lado para o outro, acompanhando seu andar. Tive de parar onde estava para observá-la. A forma como seus passos travados, olhos fixos em seu tablet, destacavam–se da multidão e precisavam ser observados.

A ruiva era a garota mais bonita que havia visto. Quando a olhava, meu sangue corria quente e eu podia sentir a minha pulsação em várias partes do meu corpo.

Minha mente ia rapidamente para controlar a minha ofegante respiração, enquanto tentava fugir de engoli-la com os olhos em todas as partes desnudas que seu cabelo insistia em mostrar com suas remexidas.

Em pouco, levantava a cabeça para observar o caminho a sua volta, se certificando de que não esbarraria seu pequeno corpo em outros desconhecidos. Quando me viu, se abriu em um sorriso tão brilhante que foi capaz de iluminar todo o cômodo. As paredes metálicas reluziram em laranja. Meu coração se aqueceu.

-É ela? – Caleb segurou meu braço.

-Sim, América. – sorri.

Seus trêmulos passos ganharam confiança e vieram rapidamente até meu abraço.

Seu corpo era menor do que o meu, então ela teve de apoiar-se na ponta de seus pés para passar seus braços ao redor do meu pescoço, me obrigando a lhe dar um grande abraço. Segurei sua cintura.

As madeixas laranjas foram ao meu rosto. O cheiro de folhas molhadas inebriou a minha mente. Apertei mais a sua cintura. Queria estar ali para sempre, com ela em meus braços.

O que era aquele sentimento?

O que estava acontecendo comigo?

A soltei, tinha de tirar aquele pensamento da minha cabeça. América parou a nossa frente e sorriu.

-Esse é o Caleb, meu irmão. – suspirei.

-Oi. – ele acenou.

-Vocês são irmãos? – ela ergueu uma sobrancelha.

-Irmãos de consideração. Nada de sangue. – ele sorriu.

Aquele era sempre seu discurso, mas, éramos irmãos.

Caleb começou a caminhar, indo em direção à cafeteria. Caminhamos até a grande. Com pequenas mesas de até seis lugares e um enorme balcão, com metros de porções prontas de ração, preso a uma parede de vidro. Pegávamos a nossa ração, que sempre estavam deliciosas, nos sentávamos e comíamos observando o espaço, a minha casa.

América estava maravilhada, com toda a grandeza e majestosidade do nosso universo, do nosso sistema. Ela se sentou ao meu lado e segurou minha mão por debaixo da mesa.

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