Sentimentos.

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Era de se esperar que eu acordasse em uma cama de hospital, com tubos ligados em minhas veias e os olhos preocupados de minha mãe em cima de mim. Mas não era de se esperar o que acordou comigo, o que acordou dentro de mim, o que estava dentro da minha cabeça.

O que se seguiu, dos momentos após o meu desmaio e perda de consciência não são fatos que simplesmente se possa explicar, ou consiga. Porque, sinceramente, nem eu mesma consegui entender e metabolizar tudo.

Então, para fins lúdicos, tenho uma frase simples para que vocês consigam digerir e eu possa prosseguir com a história: eu me lembro de tudo.

Parece idiota, eu sei, ou algo que saiu de alguma série sobre coisas inexplicáveis e brigas sobre um trono, mas posso jurar que é a mais profunda das realidades. Enquanto estava deitada, inconsciente, antes de acordar naquela cama, vaguei como impulso elétrico por toda a nave, vaguei como um sopro divino, e, em detalhes, assisti tudo.

E, já que esta não deve ser a notícia mais estranha que já receberam de mim ou ainda receberão, vou continuar com os fatos, desde o momento no qual apaguei, pelo simples prazer de matar a curiosidade de todos vocês, e as minhas, antes de prosseguir com a aventura.

Lembram que eu caí de joelhos? Vamos continuar daí.

Meu corpo estava no chão, em posição fetal. América se debruçou sobre ele, trêmula e em desespero. Caleb colocou a mão sobre seu ombro e sussurrou em seu ouvido:

–Não temos outra hora. A mistura deu errado, mas temos de trabalhar agora, com os resultados que conseguimos.

Seus olhos eram frios, mas eu sabia que seu coração não. Não era uma decisão simples para o asiático, mas nada daquilo estava sendo fácil para ninguém. Sinceramente, não o julgo.

A ruiva o julgou. E, sinceramente, não julgo a ela também. De sobrancelhas juntas ela se levantou, em protesto, mas sabia, nem que fosse lá no fundo, que não tínhamos outra saída, era tudo ou nunca iriamos para a Terra, mesmo que fossemos dois, e não três.

O professor se aproximou do meu corpo, meio sem vida, meio coberto de sangue que escorria do meu nariz, orelhas. Meu irmão em toda a sua posição teatral tomou América pelo pulso e bradou que iria achar minha mãe, mas que levassem a mim para o hospital imediatamente.

E eles correram, juntos, pelos corredores frios da minha casa. Não senti nada, observando aquela cena romântica clichê de qualquer filme sobre amor adolescente, mas sabia pelo suor, pelo ofegante ar quente que saia das suas narinas que eles sentiram, e não foi só uma descarga de adrenalina, fora algo naquela conexão de corpos, que lutavam por algo inexplicável. Tenho uma certa certeza de que, se eu estivesse dentro do meu corpo, me corroeria em ciúmes, em desdém, mas me mantive aquele impulso elétrico, vagando pelos corredores atrás daquelas cabeças assustadas, mas extremamente felizes.

Caleb não bateu a porta, o que não era de seu feitio. Vê-lo simplesmente empurrar uma grande porta de vidro e corar ao notar que minha mãe não estava sozinha fora um choque, elétrico. Seu rosto se encheu em vermelho sangue, mas, meio que sem ar, ele gritou:

–Sky está no hospital!

Todas as pessoas da sala que não eram Blue se entreolharam, se levantaram de forma lenta e, um por um, saíram da sala, em uma daquelas concessões sociais estranhas, que ninguém consegue explicar muito bem. Os grandes olhos azuis de minha mãe simplesmente se arregalaram, seus pés tremeram e eu poderia sentir uma ponta de desespero surgir dentro do seu frio coração, nada que eu já tivesse visto antes.

–O que aconteceu? – Séria, ela se levantou da cadeira, tentando manter alguma falsa compostura.

–Não sabemos. De repente, durante a aula, o nariz dela começou a sangrar e ela se jogou no chão. Está desacordada... – América não precisou fingir seu desespero, não precisou medir palavras ou calcular ações. Seu coração iria parar se não soubessem o que fazer comigo.

–Temos de achar seu pai. – Blue se virou ao meu irmão.

–Eu procuro ele, vocês vão ficar com ela. Sky precisa das duas agora. – A certeza dos seus pequenos olhos asiáticos era comovente, era quase real.

Caleb nunca seria certeiro assim. Ele só queria a retirar de sua sala, sem o seu cartão, sem a sua consciência. E, conseguiu.

Minha mãe assentiu para América, que abaixou a cabeça para ela e as duas seguiram, quietas e em silêncio, em direção a ala hospitalar.

Rápido, meu irmão se posicionou a frente do computador, e em menos de um minuto já tinha desligado as câmeras da sala de Blue e dos arredores das cápsulas que nos levariam a Terra. Não podia apagar toda a nave, já que esse tipo de ação seria descoberta facilmente, mas precisava cobrir nossos rastros, e, fazendo o que fez, satisfez as nossas necessidades sem criar muito alerta, afinal, aquelas eram áreas pouco checadas, ou era o que pensávamos.

Fez-se então uma apertação de teclas que eu não conseguiria decifrar, nem como impulso elétrico perto do computador. Ele suspirava, metia a mão na cabeça, tentava de novo e sofreu durante o que eu contei serem 12 minutos. Então seus pequenos olhos brilharam, abriu algumas gavetas, colocou o cartão de identificação da minha mãe em seu bolso esquerdo da calça e bateu em retirada, correndo até seu pai.

Para mim, não houve tensão, não houve desespero. Nem ao menos quando meu padrasto me injetava coisas pela garganta.

Mas, novamente, eu era um impulso elétrico, e não eu mesma.

Deitada na cama, tenho ideias e sentimentos a respeito de tudo que vi, de tudo que não senti.

Porém, agora só havia algo que realmente importava, não só para mim, mas para meus dois companheiros de guerra: sair do hospital inteira e entrar em uma daquelas minúsculas cápsulas que nos levariam até um planeta hostil. E para essa afirmação, eu tinha um enjôo característico na barriga, uma eriçada característica de pelos no braço e um receio característico bem atrás das orelhas.

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