Beijo.

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Rapidamente, as duas facetas de América se mostraram claras.

Para toda a população da nave, a ruiva era inocente, ingênua. Como uma criança, com olhos brilhantes a cada descoberta idiota. Fazia-se de boba, assim tínhamos de explicar a mesma coisa diversas vezes. Sempre havia um sorriso em seu rosto, mãos em nossos braços, encostadas carinhosas e mexidas de cabelo sensuais. Era envolvente a forma como sempre a olhávamos de cima, como seus cabelos mostravam partes partidas do seu corpo.

Sozinhas, dentro dos nossos quartos, ela era a terra selvagem que não seria colonizada sem antes lutar ferozmente. Seus vastos conhecimentos a respeito de tudo saiam em curtas frases monossilábicas. Suas madeixas estavam sempre presas em coques volumosos. Sua boca pequena e cheia não mostrava dentes, a menos em uma das suas respostas ríspidas, na qual, como um felino, seus caninos afiados apontavam em sorrisos maliciosos e de canto. Não conseguia parar de olhar para seu peito nu, cheio de sardas.

América me fez sentir partes de mim adormecidas. Meu sangue corria em minhas veias, quente e rápido, me fazendo avermelhar, tremer nas mãos e salivar.

Não tinha controle sobre meu corpo, o que não me deixava entender o que realmente estava acontecendo. Tudo que sabia era o desejo que sentia de ir para a floresta todas as noites ao seu lado.

Durante todas as tardes daquela semana, segui para sua cama ao final da aula. Tocávamos mãos e corríamos pelo bosque.

Sabia o nome das árvores. Respirávamos o ar fresco, queimava a minha pele ao sol. Aquele era o único local no qual realmente vivia, no qual podia segurar as suas mãos, deitar nas folhas secas e rodas em meio a árvores.

Até aquela sexta-feira.

Quatro dias após tê-la conhecido.

Após correr pela floresta densa e ver o primeiro lobo de toda a minha vida, estávamos deitadas em sua cama.

Lado a lado, corpos suados de uma atividade física de outra dimensão, braços se tocando, quase grudados. Podia ouvir a sua respiração pesada, ofegante. Sentia meu sangue correr em todas as minhas pulsantes veias, meu coração batia em meus braços, em minhas coxas, em minha virilha.

O quarto estava quente, as paredes apertadas. Sua presença mudava o ambiente.

América se apoiou sobre um braço, para me observar, de perto, segurando sua cabeça com uma mão. Virei-me para vê-la melhor, estávamos frente a frente.

-Você é linda. – ela suspirou.

-Não fale coisas assim, ainda mais sendo quem é. – corei, queria esconder meu rosto, mas ainda sim, fui atingida por uma pontada de ódio.

-O que você quer dizer com isso? – suas sobrancelhas se comprimiram.

-Você é perfeita, é América.

-Você é perfeita, é Sky. – ela assentiu, como falando a coisa mais natural e sensata do sistema – Tudo o que faz é lindo, porque tem um pouco de você, dessa sua crença cega a respeito das coisas. Você é tão legível e simplória. Isso é lindo. Além do mais, tem todo o seu corpo e... Meu Deus, Sky! Como você pode não se achar linda? – sua mão livre gesticulou, seus olhos foram fundo nos meus.

América falava de mim como quando se fala de algo que se gosta muito, com aquele brilho nos olhos.

Algo em mim se aliviou, algo machucado há muito tempo, bem no fundo do meu peito.

A ruiva se aproximou, chegando seu rosto próximo ao meu. Sua respiração estava quente e ofegante, marcada sobre a minha. Seu cheiro me inebriou, me tonteou. Estava sufocada, mas ainda respirava com facilidade. Estava claustrofóbica, ainda que totalmente confortável. Era uma adrenalina que pulsava em meio as minhas veias e me incitava a correr ou fugir, mas no final das contas, a calmaria tomava conta de mim.

Minhas mãos tremiam, em uma espécie de medo, mas essas eram as únicas coisas da qual eu realmente tinha total conhecimento, o resto, era uma total bagunça de sensações e confusão de ideias.

Suas mãos tocaram minha bochecha e meus cabelos, então ela suspirou e sorriu. Calmamente, seus lábios se pressionaram contra os meus, com cuidado.

Minhas pernas tremeram, minhas bochechas coraram. Meu rosto estava queimando com o sangue quente que passava ali.

Nossas bocas se abriram e juntas, nossas línguas rolaram em um sentimento que me fez sentir todas as partes do meu corpo, inclusive e principalmente, aquela parte.

O calor dominou corpo, assim como a adrenalina e o medo.

Empurrei-a de cima de mim.

América foi em direção à parede, batendo sua cabeça na mesma.

Levantei-me da cama, assustada. Sem saber muito como agir ou o que pensar. Peguei meu tablet da mesa. Virei-me para ela. Deuses, não conseguia olhar em seu rosto.

-Você se machucou? – a realização de que poderia ter a machucado me fez virar, então a vi segurando a sua nuca, cabisbaixa, ainda com a boca avermelhada por ter acabado de me beijar. O quarto estava abafado, as paredes muito próximas e meus pés inquietos – Desculpe-me, eu só não posso...

Caminhei até a porta, mas se pudesse, teria corrido. A mesma se abriu em segundos, tão demorados... Fui, rapidamente, me esgueirando pelo labirinto da nave e cheguei ao meu quarto, me deitando desolada em minha grande cama.

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