Cheiro de Chuva.

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Andamos e circulamos vários andares, ficando perdidas várias vezes.

Em qualquer outra situação, eu ficaria muito irritada com isso, mas era ela. América estava explorando, uma aventura que seu sorriso inocente e seus olhos brilhantes mostravam ser incrível. Então, em silêncio, caminhei atrás das suas pequenas pernas que me levavam a todos os lugares que já conhecia.

Finalmente, depois de algumas horas, chegamos ao seu quarto. Um andar abaixo do meu. Tão perto de onde estávamos...

A grande porta oval e escura era fria, a mesma porta que todos os quartos tinham.

–É como uma grande toca... – ela caminhou, mais lentamente, para frente.

Assim que a ruiva estava parada a cerca de dois passos da porta, uma grande bola verde se acendeu no meio da mesma. O que fez ela recuar, quase que imediatamente, e me arrancou uma curta risada.

–Você tem que passar o seu tablet na frente disso, vai abrir o seu quarto. – sorri, a levando devagar para a porta, novamente.

Ainda hesitante, ela o fez. As portas pesadas abriram, em um sopro.

Havia algo de nostálgico em ver a mesma configuração em todos os quartos que se entrava. À esquerda, estava a grande e confortável cama, apoiada nesta e na parede a nossa frente, coberta, quase que por completo, por um grande armário; já à direita, estava uma grande mesa e uma cadeira de escritório.

Com paredes baixas e armários altos, essa era a sua habitação, a minha habitação, a habitação comum.

América apertou seu tablet no peito, segurando tudo que tinha de confortável e seguro, então entrou naquele pequeno cubículo, colocando-o em sua mesa e se sentando na cama.

–É tudo tão... Pequeno. – ela suspirou.

–Não. – entrei, me sentando na cama.

A porta atrás de mim se fechou com violência.

–Você não conhece nada maior do que isto, te digo, é pequeno. – ela sorriu, pegando todo o seu desarrumado cabelo.

Tinha uma resposta. Falaria sobre como àquilo era o tamanho necessário para um casal viver, como todos tinham o mesmo tamanho, como... Não importava. Só importava a forma como ela usou o braço e as mãos para enrolar todo o seu enorme cabelo ruivo em um coque frouxo, cheio e cheio de fios rebeldes sobre a sua cabeça.

Eles eram lindos, mas não mais do que ela, não mais do que poder realmente a vê-la.

Usando uma regata, podia ver a forma como as suas sardas não se estendiam apenas as suas bochechas, mas também aos seus ombros, ao colo de seus seios.

Droga! Estava com a mesma feição idiota de quando tinha a visto pela primeira vez.

Suas maçãs do rosto se avermelharam, então ela soltou uma curta risada, tapada pelas suas pequenas mãos envergonhadas que cobriam seu rosto.

–Então... A sua casa era maior que isso?

As palavras saltaram da minha boca, idiotamente, na tentativa de fazê-la se sentir melhor.

–Você não quer falar sobre a aldeia de rebeldes da Terra. Você quer falar sobre o seu sistema, ou, sobre aquela coisa estranha que acabou de acontecer lá embaixo. – sua cabeça se ergueu novamente.

América não estava se mostrando ser a garota assustada do andar acima, mas outra pessoa. Iluminada pelas luzes neon do quarto, seus olhos cintilavam em conhecimento, em coragem, em um fogo quase selvagem, porém arisco, que eu antes não havia notado.

Queria conhecê-la, mas meu instinto sabia que fora um erro muito grande trancá-la dentro da nave.

–Você tem razão. Eu odeio rebeldes. – suspirei.

-Não pode me odiar. – o canto direito da sua pequena e cheia boca se ergueu, em um sorriso desafiador.

Tinha razão. Não poderia, pois estava tentando, pois ela estava tentado. O que sentia era algo diferente, algo que ainda não sabia decifrar, mas iria.

Abaixei a cabeça.

–Quero fazer algo. – a inocência voltou a sua voz.

Ergui-me, cruzando as pernas.

–Quer conhecer a minha casa? – América copiou meus movimentos.

Estávamos eretas, frente a frente.

–Nem ao menos sei como fizemos aquilo...

–Sky... A beleza está em descobrir por si só. – juntei as sobrancelhas, não concordava com aquelas palavras – Você é do tipo dos livros, com medo de olhar pelas janelas. Isso não vai te levar a lugar algum. Nós vamos a algum lugar agora.

O som agudo de sua voz me conduziu, como uma maldita hipnose.

Fechei os olhos, se éramos para entrar naquilo, que fosse cegamente.

Senti a ponta de seus dedos tocarem meu ombro; nada. Em um carinho tímido, seus dedos passaram pelo lado do meu pescoço; nada. A ponta do meu nariz; nada. Meus braços, pernas, cabelo; nada. Suas palmas agarraram meus pulsos; nada.

América bufou.

Copiei seus movimentos, trêmula. Tocava em uma obra de arte dos tempos medievais. Ainda sim, nada.

Bufei.

–Então, é só se tocarmos em nossas mãos. – ela sorriu.

Senti seus delicados dedos passarem pelas minhas palmas, recostarem suas digitais nas minhas; nada. Estava ficando irritada. Ela apoiou suas mãos sobre os joelhos, deixando as palmas para cima.

Coloquei minhas palmas sobre as suas, segurando seus pulsos com meus dedos grandes.

O cheiro era sempre o primeiro a mudar, com um ar de molhado, úmido; então as árvores, altas, cheias. A escuridão tomou conta do cômodo, o transformando.

–É a minha casa. – América suspirou, nostalgica.

Na miragem, sua mão soltou a minha. Ela rodopiava, com os cabelos soltos em meio a uma água que caia em gotas do céu. Estava tão feliz.

–Esse foi o cheiro que tinha dito antes? Isso é chuva! É cheiro de chuva! – ela gritou, enquanto continuava a rodar, de braços abertos.

Então, parou, olhou-me nos olhos e sorriu.

Começou a correr, floresta adentro. Fazendo-me segui-la. O barulho das folhas pisoteadas pelos nossos passos apressados, o vento em nosso rosto, o movimento das árvores. Tudo tão verde, tão diferente, tão real.

Era a coisa mais bonita que já tinha presenciado em toda a minha vida.

América me parou, me segurando. Então me puxou, me levando calmamente até um local escondido em meio a arbustos.

Lá, no meio da perdida floresta, havia uma casinha, montada com pedras, folhas e muito barro. Poucas janelas e uma chaminé que soltava fumaça constantemente.

–Minha casa. – ela apontou para a construção, sorrindo.

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