América.

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Era um dia comum na nave, uma terça-feira. De manhã – uma manhã artificial —, saia da ala politica do dormitório para chegar à escola, encontrando com Caleb no caminho.

Filhos de políticos dormiam na ala politica, com quartos próximos aos dos seus pais. Todos nós tínhamos pequenos quartos dos mesmos tamanhos e formações, então aquela era mais uma medida puramente burocrática para a nossa segurança.

Minha mãe era a chefe de segurança do nosso sistema solar, ganhando o mesmo salário que qualquer guarda de trânsito, seja na nave, na terra ou em marte. Ela era a pessoa mais honesta que conhecia.

Não tínhamos muito em comum. Filha de uma corrente extremista europeia, que buscava se manter assim, mesmo com o fim de qualquer continente, ela tinha tais características preservadas. Loira, dos olhos e pele clara. Rebelde, buscando irritar a sua família, começou um relacionamento não muito duradouro com um negro e aos 16 anos ficou grávida. Sem pai, com um alto cabelo enrolado e cheio, pele morena clara, traços negroides e olhos tão verdes quanto os dela, fui chamada de Sky, já que era considerada tão escura quanto o céu a nossa volta. O racismo prova que nem tudo pode ser perfeito nesse regime.

Caleb era o filho do marido da minha mãe, chefe de saúde. Ambos asiáticos eram pouco unidos. Em segundos nos tornamos melhores amigos. Em algum futuro próximo, nos mudaríamos para a Terra, comprando grandes casas em meio às plantações que originavam as nossas rações, trabalhando em entretenimento e ele se casaria gerando alguns filhos, enquanto eu teria uma biblioteca, cheia de livros da época em que um asteroide ainda não tinha destruído metade da nossa casa.

A vida na nave era boa, e a aproveitaria muito antes de ir embora, já que, uma vez que se vai, é muito difícil voltar.

–Bom dia! – Caleb estava a minha espera no corredor.

Segurando seu tablet e com um sorriso no rosto, ele parecia estar me esperando há algum tempo.

Os papéis tinham deixado de existir. Usávamos agora, tablets, celulares e notebooks feitos de um grosso vidro azulado, às vezes acoplados com grandes e grossas presilhas pratas. Aquela era a nossa identidade, nossa chave, não era possível perder ou estragá-los, já que, além de ser um concerto muito caro, a vida parava por algum tempo.

–Bom dia. – continuei andando.

–Temos uma garota nova! – ele me seguiu.

–Uma garota nova? – parei, abruptamente.

Bati meus dedos em meu notebook, ainda o segurando contra o peito.

–Sim... A sua mãe encontrou uma aldeia inteira de rebeldes, eram poucas pessoas, mas tinha essa garota da nossa idade... Meu pai a examinou, inclusive, psicologicamente. Acreditam que ela possa reintegrada a sociedade atual e esse tipo de coisa.

–Agora nós fazemos isso? Reintegramos? – ergui uma sobrancelha.

Se havia algo em todo esse sistema que realmente me irritasse, com certeza, seriam os rebeldes. Obviamente, como em todos os regimes, havia pessoas que não concordavam com as politicas adotadas, mas o nosso sistema funcionava! Tínhamos salvado a espécie! Não havia toda essa desigualdade e os mundos fluíam bem.

O regime era algo no qual acreditava, fielmente. A história dele era algo fascinante. Toda a luta para a unificação da raça humana e a divisão do sistema solar em algo funcional era simplesmente incrível. Não acreditava que ainda havia pessoas estúpidas o suficiente para viver sob nossos cuidados e não acreditar no que pregávamos... Não acreditar em algo que funcionava.

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