Explosão Nuclear.

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Estávamos sentados em círculo, no chão do meu quarto. Nos entreolhávamos, com os cenhos fechados e ombros arqueados, carregando o peso dos medos nas costas. Ninguém queria, realmente, começar a falar.

Respirei fundo e enchi o peito, em uma coragem repentina e instantânea.

–Estamos sendo observados, não há como falar nada. – Caleb fitava o horizonte, o abismo inteiro que a minha parede guardava, ao me interromper.

–As coisas não são assim. Quando me chamou em sua sala, minha mãe me explicou o sistema das câmeras de segurança. O governo usa da justificativa de controle e segurança, assim, todas as áreas públicas são grampeadas. Os quartos e os banheiros são áreas privadas, não podem ser gravados. – o respondi.

–Então, estamos a salvo? – América abaixou os ombros, como se tirasse um enorme peso das costas.

–Não – continuei, com um pesar em minha voz –, e não apenas por causa das câmeras. O transformador foi desligado por uma garota ruiva. Eu vi as filmagens, e, se antes já não tinha motivos para desconfiar de você, América, tive a minha comprovação de que estou certa. Porém, ficou claro que estão fazendo de tudo para te incriminar.

–Os residentes da nave não querem uma rebelde aqui, isso é fácil de entender. – Caleb bufou.

–Eu não fiz nada, para ninguém.

–Você é uma rebelde. Por mais que acreditemos em você, por mais que te conhecemos, é muito fácil entender a todos. – ele continuou.

–Você representa uma ameaça. Vão tentar acabar contigo, conosco. – completei.

–Podemos achar ela? – os grandes olhos azuis da ruiva penetraram nos meus, ela estava implorando, de uma forma que nunca havia a visto fazer antes.

–Vamos a achar. – afirmei.

Sentia que tinha de protegê-la. Não como um desejo, mas como uma necessidade. Era uma atração astrológica, a gravidade. América era o sol, pulsante, laranja e grandioso, e eu, apenas um planeta orbitando ao seu redor.

A ação de beijá-la foi automática. Sem medo, tremedeiras ou o que quer que seja. Intenso e de minha autoria.

Quando nossos rostos se descolaram, seus olhos se abriram felizes, brilhantes.

–Sei que esse é um momento lindo e romântico, mas tenho muitas coisas para mostrar para vocês. – Caleb limpou a garganta antes de começar a falar.

Sorri e me virei para frente.

–Vamos logo com isso. – ela sorriu, mas não parecia animada.

–O que eu vou mostrar aqui é oficialmente ilegal. Eu posso ser preso por traição... O que só torna tudo isso muito mais interessante. – Caleb dizia mexendo em uma mochila atrás dele.

Então, se virou devagar, segurando com as duas mãos, um grosso livro, jogando sua mochila para longe.

Em 17 anos de vida, nunca havia visto uma folha de papel, quanto mais um livro, com mais e mil páginas, escritas com tinta de verdade e uma cheirosa capa de couro vermelha.

Caleb o soltou, fazendo-o cair com violência no chão. Pensei, que teria tanto cuidado com aquela rara joia, aquela peça histórica e tão preciosa, enquanto meu irmão havia simplesmente o largado ao chão. Queria tirá-lo dali, cuidar dele, nutri-lo.

–Isso é um dos livros proibidos. Foi criado na Era Escura, depois que a Terra havia sido atingida, mas antes da nave. O escritor é K. L. Abraham, o famoso ex-líder da oposição ao governo atual. – ele encheu o peito, em uma pausa – Quando o nosso ditador chegou ao poder, em seu primeiro ano, pegou todos os livros que julgava ruins e os jogou no porão da nave, para nunca serem achados, matando todos os seus autores.

Caleb jogou toda aquela informação como jogou o próprio livro, rápido, ríspido, com força e nenhuma delicadeza. Havia bombas em nossos colos, bombas contendo as palavras que ali foram ditas. Então sorriu e continuou:

–Isso aqui, é uma obra-prima.

Peguei o livro, com cuidado, o apertando contra meu peito. Queria dormir com ele ao meu lado, por toda história que carregava, antes mesmo que suas linhas fossem lidas, antes mesmo de responder as minhas perguntas.

–Quem jogaria livros no fundo da nave? – América fechou o cenho, irritada.

–O cara a quem você se subordinou para estar aqui. Rupert Augustus Sanglard e seu pai. – o sorriso de Caleb se fechou.

–Existem mais? – acariciei o livro.

–Muitos! É um paraíso! Minha mãe os organizou quando era chefe de cultura. Cresci em meio a eles. Foi por isso que a mataram, porque ela sabia demais. – ele respirou fundo.

O asiático nunca falava de sua mãe, quanto mais de sua morte. Aquela informação era absurdamente nova para mim. Foi um baque, um que ele resolveu passar por cima rapidamente, continuando a falar:

–Nunca te levei lá porque não quero te envolver na ilegalidade de tudo isso, Sky. Sei que ama livros, mas você sempre amou mais a ordem aparente do sistema. Não poderia arriscar a minha vida, muito menos a sua. – ele segurou minha mão.

Pela primeira vez, senti que havia algo de errado na minha crença no governo. Não poderia ser certo algo que me privava de muitas obras maravilhosas.

–Tudo bem. – respondi, aquela não era a hora de entrar naquele assunto.

Tivemos um momento de silêncio, para absorvermos tudo. Meu irmão, então, retirou o livro de minhas mãos e o abriu, passando as páginas ferozmente. Parou em uma específica, apontou para o título, virou o livro para nós e continuou a falar:

–Tudo bem, vamos começar! – ele estalou seus dedos e nos olhos – Como vocês já devem saber, a Era Escura foi quando todos queriam entender o que estava acontecendo com a Terra. Foi uma época regada por teorias de conspiração e explicações absurdas.

Caleb olhou fixamente para mim, para dentro dos meus olhos.

–Esse livro, sempre me soou como uma ideia absurda com vários fatos que a comprovavam, mas agora, é a única explicação lógica que posso dar para o que acontece com vocês duas. – ele respirou fundo.

–Conte logo. – América se irritou.

–Para que vocês comecem a entender tudo, tem de assimilar uma coisa que vai deixar você, Sky, particularmente irritada. O livro diz que o que destruiu grande parte da Terra e a tirou de órbita, não foi um cometa vindo do espaço.

–Então... O que seria? – suspirei.

–Uma explosão nuclear. – ele assentiu.

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