As Crônicas do Andarilho

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Autor: Rodrigo Ponciano



"Idiota!" foi o primeiro pensamento do caçador ao abrir os olhos e encontrar apenas o "breu". Sua cabeça doía junto com as costas; a pancada tinha sido forte. Estava ficando velho ou tinha provado vinho demais naquela noite. "Mas um imortal nunca envelhece. Apenas precisa do sono de reparação dos imortais", pensou o caçador. Por isso, precisava encontrar o mago para conduzi-lo ao sono. Naquele momento, no entanto, precisava terminar o trabalho. Sentia náusea e um fedor entorpecente. Tentou decifrar o cheiro, mas não conseguiu.

Passou a mão na testa empapada de suor e encostou a outra na parede úmida para tentar se levantar. A princípio, foi dominado por uma tontura até conseguir firmar os pés. Após andar alguns passos, sentiu o chão afundar e ouviu som de rachadura. Andou lentamente mais alguns passos; manteve o controle. Quando estava se acostumando à escuridão, enxergou uma luz opaca advinda de uma fenda. De repente, recuperou a memória e relembrou os últimos fatos no acampamento nômade.

...

O que está acontecendo? - Perguntou ao Mago.

- Sairemos para uma longa caçada noturna.

- Caçaremos o "Andarilho das sombras"?! Ouvi muitos dizendo isso. Caçarei sozinho a criatura!

- Não acha melhor caçá-la em grupo?

- Prefiro caçá-la sozinho, já disse. - Respondeu o caçador, provando o delicioso vinho. - Alguns homens não sabem rastreá-la e fazem muito barulho.

- Ela, então, existe? - gritou um bêbado, também na taverna. - A criatura das sombras não é falsa? Um assassino está solto na floresta.

- Espero que tenham sucesso na caçada. - Comentou o caçador. - O "Andarilho das sombras" é traiçoeiro; costuma nos enganar com tolas ilusões.

O caçador esqueceu alguns momentos presentes em suas lembranças e se limitou a tomar um guisado de coelho ao lado do mago.

- O que achou do meu guisado? Perguntou o mestre cozinheiro anão.

-Está perfeito! - Respondeu o mago. - O melhor que já provei.

O elogio tirou um sorriso do mestre anão; era verdade: o caçador nunca havia provado um guisado tão gostoso igual àquele em nenhuma Terra do Reino. Não quis comentar isso; deixaria o mestre cozinheiro orgulhoso demais naquele momento. Repetiu o guisado pela segunda vez e também limpou todo o prato: estava realmente maravilhoso!

Em seguida, saiu da tenda que dividiria com o mago. A noite soprava um ar gélido; o senhor dos ventos estava melancólico naquela noite. O caçador acendeu um cachimbo de ervas e o grande mago apareceu.

- Noite fria! - Comentou o caçador. - Está confortável na pele de lobo?

O mago apenas assentiu com a cabeça.

- Gostaria de se juntar a mim na caçada? - Perguntou. - A união de minha experiência como rastreador com as suas magias será útil.

O guerreiro cobriu o rosto do vento gélido e não se lembrou de mais nada.

...

Uma criatura estava causando pânico em diversas aldeias do Sul. Ninguém sabia quem era. Alguns contavam que era um grande lobo negro das Terras Escuras, enquanto outros afirmavam ter visto um grande urso negro das montanhas do Norte das terras do Reino. Alguns caçadores saíram à procura do conhecido "Andarilho das sombras" e nunca mais retornavam.

Antologia: Clube de Autores de FantasiaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora