Anjos

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Autor: Rafael Zorzal



Minha mãe sempre me contava história sobre os seres celestiais. Ela dizia que eles viviam acima, nos observando do alto juntamente com o criador. Falava que eles eram como nós, porém mais belos e imponentes, sem falar que possuíam uma bondade imensurável. Nos protegiam do mal a todo custo, ou pelo menos tentavam. Mas estavam sempre lá. Mamãe também dizia que quando nós dormíamos para nunca mais abrir os olhos, eles desciam em brilhantes carruagens voadoras e nos levavam com eles. Iríamos junto com os anjos para o reino do criador.

Me lembro de todas as histórias que ela contava. Me lembro dos momentos que eu adormecia as ouvindo e ela me cobria, deixando sempre uma luz acessa pois sabia que eu tinha medo do escuro.

E, de fato, eu nunca irei esquecer o seu atônito e confuso rosto quando as carruagens dos anjos desceram dos céus.

Foi na noite de meu aniversário. Estava fazendo dez anos. Papai tinha feito uma fogueira do lado de fora da casa e contava uma história pra mim e pra mamãe enquanto nós três ficávamos debaixo de um cobertor. E nessa noite, eu ouvi um som. Perguntei ao papai o que tinha sido o tal barulho. Antes dele falar, nós vimos.

Uma luz amarela cortou o céu e ela surgiu do meio dela. A carruagem dos anjos. Todos ficaram em silêncio. Ela simplesmente pousou na rua, na porta de nossa casa. Olhei para a minha mãe, mas os olhos dela estavam presos naquilo.

Papai me pegou pela camisa com a mamãe, nos levou para dentro de casa e trancou tudo. Perguntei a mamãe se eram anjos e ela me respondeu que esperava que fossem.

Os dias seguintes passaram muito rapidamente. Mais e mais carruagens dos anjos chegavam. Andávamos na rua e, quando menos percebíamos, elas apareciam. Mas os anjos não eram como eu pensava que eram. Vi eles pela primeira vez no jornal no dia seguinte após a chegada. Eles eram parecidos conosco, mas não eram belos e impotentes como mamãe falava. Tinham dedos a mais nas mãos, eram altos de um jeito esquisito e falavam uma língua que ninguém entendia.

Ficamos nisso durante dois meses. Os anjos começaram a falar com os políticos - não sei como conseguiam com aquela língua estranha -. Papai dizia que isso não era bom sinal e eu também pensava a mesma coisa. Por que os anjos desceram do reino do Senhor e por que estão falando com os políticos?

Mas ai... tudo começou a mudar. E não pro lado bom. Papai tinha razão em saber que tudo aquilo não era coisa boa.

Após esses dois meses, começaram a aparecer um monte de soldados nas ruas. Sempre, enquanto brincava ou fazia outra coisa, via o papai e a mamãe discutindo, mas nunca entendia o por quê.

E ai começaram os tiros. Muitos, muitos tiros. Só se via isso na televisão. Eu estava confuso. Por que os anjos estavam fazendo aquilo? O que eles queriam? Acho que aquilo tudo tinha que ter um significado.

Quando as bombas começaram, papai levou a gente pro porão lá de casa. Tínhamos comida, alguns sacos de dormir e um pequeno rádio. Eu queria escutar música, mas papai sempre tinha que ficar escutando o jornal pra saber se alguma bomba ia cair.

E depois... depois... as bombas pararam. Tudo parou. Menos os anjos. Eles começaram a ir de casa em casa. Tinham umas armas grandes e estranhas. Entravam, pegavam todo mundo de lá, colocavam nas carruagens e levavam embora. Tinham pequenas pranchetas eletrônicas e, quando pegavam alguém, conversavam com aquela língua estranha deles. Então, decidiam em qual carruagem eles colocariam a pessoa.

A gente continuou escondido, mas não adiantou. A comida estava acabando e foi só o papai sair do porão pra tentar conseguir mais que os anjos acharam a gente. Perguntei a mamãe se não era uma coisa boa irmos com eles nas carruagens celestiais, mas ela não me respondeu.

Antologia: Clube de Autores de FantasiaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora