O mal que veio do mar

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Autora: Francélia Pereira



Era uma tarde sombria. Mais uma das tantas tardes em que o desespero e o pavor tomavam conta daquele povo que até bem pouco tempo era abençoado com a mais perfeita paz e prosperidade.

Do alto de uma pedra grande, à distancia, Kyari observa a aldeia. Desde que fora banido do meio de sua gente, por ter levado a eles "o mal"; Kyari sofre as dores do remorso e só observa, pensativo, enquanto sente que o fim de tudo está próximo.

De repente, gritos como os do inferno e choro intenso tomam conta da aldeia. Do mar vem Anhangá, o terrível espírito das profundezas sem luz das águas.

- Nosso sofrimento não tem fim. Será que nossos deuses não se apiedam de nós?

Em pânico as pessoas tentam em vão fugir de seu destino trágico.

Anhangá se aproxima, pega um velho pelo pescoço e pergunta:

- Quem ousa invadir os meus domínios, Velho?

Com os olhos arregalados, tremendo de pânico, o velho usa o último sopro de vida em seu corpo para levantar a mão e apontar para trás; era Abaeté, o monstro que também veio do mar.

Anhangá joga a carcaça sem vida do velho no chão e segue ao encontro de seu rival poseidônico.

- Moxy, moxy, moxy... Então você acha que pode espalhar o terror em minhas terras, seu monstro maldito. Terá que enfrentar a fúria de Anhangá, o demônio que habita Pindorama. Morra, moxy Abaeté.

Anhangá assume uma forma gigantesca e atravessa fantasmagoricamente o corpo de Abaeté, o Titã que trouxe todas as desgraças para o povo de Kyari. Abaeté se congela, pois todo o seu sangue perde a energia vital após o ataque de Anhangá. O demônio de Pindorama solta uma gargalhada sinistra e quando se prepara para dar o golpe final em Abaeté, é surpreendido por um vento fétido, o sopro mortal do monstro estrangeiro. Anhangá se assusta com o poder devastador de Abaeté, e foge para o fundo do mar.

Kyari continua imóvel sobre a pedra, observando, pensativo; já não sente mais medo diante dos acontecimentos. Era como se o espírito de Kyari tivesse abandonado o seu corpo.

Abaeté não se contenta em ver a fuga do seu oponente; vai atrás de Anhangá no mar. Antes mesmo que a personificação das trevas deixasse para trás o último raio de luz, Abaeté o devora, incorporando agora todo o mau que aquela entidade representava. Abaeté, o horror encarnado, agora era o único rei das trevas marinhas.

O sol se põe mais uma vez. Mais um dia termina no purgatório. Kyari se lembra do dia em que tudo começou.

Naqueles dias, os homens estavam ficando diferentes. Muitas brigas sem sentido, muitas guerras fora do contexto da cultura do lugar; os pajés já avisavam que algo muito ruim poderia acontecer se o povo continuasse a se afastar do tipo de vida que seus ancestrais viviam; mas os espíritos da tribo pareciam pedir mudanças. "Nada dura para sempre", e naquele momento mais um ciclo estava se fechando nas vidas do povo que habitava Pindorama, a terra das palmeiras.

Kyari estava na praia. De repente, das águas surge uma bela jovem. Sua pele era tão clara quanto a Lua, seus cabelos ondulados até a cintura tinham o brilho dourado do Sol e seus olhos refletiam o azul daquele céu claro de verão. Ela sorri, e Kyari vai ao seu encontro.

- Sou Europa, meu belo jovem. Estou perdida nessas praias e busco ajuda.

Kyari, enfeitiçado pela imagem quase divina à sua frente, não pensa duas vezes.

Antologia: Clube de Autores de FantasiaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora