Herança do Éden

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Autor: Ademar Ribeiro



Durante o início, o final ou reinício dos tempos, existia um suntuoso vale. Encontrava-se ao leste. Era rico e belo: um tapete verde e brilhante se estendia por toda a sua planície e enormes árvores frondosas produziam frutos tão belos quanto suculentos. Suas águas brotavam em nascentes límpidas e translúcidas, com corredeiras caminhando em seus trajetos incansáveis e tornando a região um verdadeiro paraíso. Ali, naquele tal suntuoso vale, viveram personagens cujas vidas tiveram grande importância num futuro. Futuro este conhecido como Herança do Éden.

Certa vez em um dia atípico no mais alto monte verdejante do paraíso, atrás do rochedo azul e das gigantescas árvores frondosas, raiou uma luz neon. Luz de cores azul anil ao vermelho magenta em forma de esfera, uma supernova do tamanho de um paquiderme. As luzes giravam num cadenciar rítmico, com a poeira da terra tomando o mesmo rumo da espiral iluminada e se unindo a ela. Um zunir surdo, como o de um galho seco e extenso sendo girado, ecoava da esfera iluminada. Aqueles mais próximos até podiam sentir as ondas de deslocamento de ar.

Alguns pequenos animais um tanto curiosos espreitavam a estranha visita iluminada. As cores cromatizadas estacionadas ali no pico da colina refletiam os olhos atentos.

- Hei seu lerdo, vá buscar o líder, ele deve saber do que se trata essa estranha aparição. - disse uma figura pequena e felpuda de olhos vermelhos e bigode branco.

- É pra já, Saltitante! Eu que não quero saber o que é isso aí! - respondeu em disparada o pequeno canídeo da pele marrom-avermelhada de orelhas compridas.

Uma revoada de pássaros coloridos seguia rumo à colina, como se fossem conduzidas até lá em busca de um verão mais quente. Aos poucos se empoleiravam nas abundantes árvores do rochedo logo abaixo. Algumas espécies de pequenos símios escalavam agilmente os enormes e imponentes mastros naturais disputando os melhores lugares para admirar a tal aparição. Um bando de animais se aglomerava no grande vale, hipnotizados, assistindo a estranha luz reluzente em seus olhos. Cada espécie com seu par se ajeitava como podia e admirava o ápice da colina atentamente. Eis que o Brado e sua bela companheira, a Temível, desfilavam seus corpos majestosos por entre a multidão de espécies. Todos o reverenciavam, abaixando suas cabeças em sinal solene ao líder do enorme vale. Brado, o Forte, se adiantou à sua companheira. Encarou seus súditos nos olhos e se virou para a esfera iluminada. Um rugido alto e retumbante ecoou por todo o vale, e os pequenos animais se esconderam atrás dos maiores que ali estavam.

A luz se amainou e uma silhueta esguia surgia ali - juntamente a uma breve névoa - como se formada holograficamente, seguindo em direção ao bando de animais. Brado, o Forte, um tanto desconfiado, estreitou os olhos procurando entender que criatura era aquela de caminhar tão peculiar. Já vira alguns pequenos primatas se moverem daquela maneira, mas não com tanta agilidade e elegância.

Uma criatura diferente de fato: não ostentava uma cauda, mas não era dos lagos. Não possuía presas, mas não era de todo banguela. Tinha um corpo diferente, rijo e opulento, num tom caucasiano bronzeado. Portava longos pelos escuros na cabeça e alguns esparsos em sua face e torso, com uma muda que se concentrava abaixo da barriga próxima ao pêndulo da vida.

Brado se aproximou da criatura de caminhar lento, tentando entendê-la ao admirá-la.

- Pare! - rugiu Brado, o Forte. - Não se aproxime nem mais um passo, ó criatura forasteira! - gritou em uma voz grave.

A criatura, que caminhava objetivamente descendo a colina, encarou o líder Brado de forma respeitosa e abriu um breve sorriso.

- Hei meu nobre amigo, sou de paz, sou aquele que lhe incumbirá da sensatez! - disse a estranha criatura de voz firme, mas melodiosa, elevando as palmas de suas mãos à frente em sinal de rendição.

Antologia: Clube de Autores de FantasiaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora