Meu Encontro com a Magra

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Autor: José Geraldo Gouvêa



Che­guei de via­gem can­sado, ansi­oso por dor­mir. Dei­xei meu carro na gara­gem e saí pela noite anó­dina e sem lua. O ar estava pro­fa­nado pela chuva ainda recente, exa­lando uma catinga de mor­ri­nha de cachorro molhado e os meus pés cha­pi­nha­vam nas poças de água bar­renta que sal­pi­ca­vam as cal­ça­das. No céu par­ci­al­mente limpo algu­mas estre­las, nenhuma ven­cendo de todo a ilu­mi­na­ção artificial.


Havia uma mulher sen­tada num banco de praça no meio do meu cami­nho, uma mulher ves­tida rou­pas negras e lon­gos cabe­los, com o rosto afun­dado entre as mãos. Estava imó­vel como uma morta e meio apoi­ada, de um lado, sobre algo escuro e dis­forme. Obser­vei que cur­vava a cabeça sobre os ante­bra­ços e as mãos fica­vam per­di­das entre as madei­xas escu­ras, que a brisa da noite dis­cre­ta­mente agitava.


Pode­ria ser uma men­diga, ou qual­quer ima­gem sobre­na­tu­ral, ou tal­vez ape­nas uma jovem dro­gada. Alguma coisa me fez sim­pa­ti­zar com sua soli­dão no vazio daquela madru­gada peri­gosa. Por isso, con­tra­ri­ando o senso que sem­pre me man­dava, de noite ou de madru­gada, igno­rar tudo que tivesse duas per­nas e esti­vesse fora de mim, che­guei mais perto e lhe dei boa noite.


Foi como se ras­gas­sem a mor­ta­lha de um fére­tro antigo. Ela ergueu o rosto pálido e mace­rado de lágri­mas con­tra a luz apá­tica das lâm­pa­das elé­tri­cas, mirou nos meus com uma devas­ta­dora expres­são de luto em sua boca e uma potente tris­teza tor­cendo seu cenho. Dava para ver que ela havia cho­rado recen­te­mente. Não! Cho­rava ainda: um bri­lho pero­lado apa­re­cia na pele ao redor dos olhos, pondo um apelo ainda mais puro aos mis­tu­ra­dos sen­ti­men­tos que me aco­me­tiam. Per­cebi, sur­preso, que seu rosto não levava maqui­a­gem, que seus dedos não por­ta­vam aneis e que havia sus­penso em seu pes­coço somente um rús­tico pin­gente pra­te­ado em forma de luar.


A voz que res­pon­deu ao cum­pri­mento foi quase inau­dí­vel, como o sus­surro de uma pro­fe­cia em um sonho. Não, eu não pode­ria ajudar-​ lhe em nada. Sua expres­são deso­lada certificou-​me disso tão logo eu pen­sei per­gun­tar se pre­ci­sava de alguma coisa. Mas depois de refle­tir por um momento, tal­vez temendo que eu seguisse meu cami­nho, abordou-​me com uma audá­cia ignorante:


— Tu me amas?


Aque­las pala­vras ven­ta­ram como uma ver­ti­gem em meus ouvi­dos. Como pode­ria pen­sar que alguém pudesse amar a quem nem sabe quem é? Disse-​ lhe isso: « Não a conheço ». Ela não gas­tou nenhum segundo antes de ten­tar de outra forma:


— Então me odeias?


Suas pala­vras saíam como se fos­sem anti­gas, com poeira de ida­des ime­mo­ri­ais, inci­ne­ra­das pela incle­mên­cia dos sécu­los. Achei graça nesse ana­cro­nismo e tam­bém joguei da mesma forma:


— Como odi­a­ria a quem não pude ainda conhecer?


Ela dei­xou des­cer outra gota soli­tá­ria de seus olhos e afir­mou, como quem arranca o pró­prio fígado:


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