O Zmaj

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Autora: Gabrielle Erudessa



Anya soltou um suspiro de desesperação e raiva quando errou novamente a partitura, jogando os braços pálidos para o alto e se inclinando para trás no banco do piano. Depois, ainda irritada, baixou a tampa das teclas e apoiou os braços na madeira e o queixo neles, bufando. Alguns cachos do cabelo loiro saíram do lugar e caíram sobre seu rosto. Balançou as pernas curtas debaixo das saias do vestido, tentando decidir se tentava escapulir do salão de música privativo do Hermitage e se escondia na biblioteca. Estava claro que, diferente de sua irmã quatro anos mais nova, Sofia, não levava o menor jeito para música. Era uma pena que o seu pai e o professor ignorassem tal fato deliberadamente.

Endireitou-se e alisou os amassados do tecido antes de pular para o chão de madeira e caminhar para as portas fechadas, detestando o rangido de seus sapatos conforme andava. Abriu com cuidado a passagem, procurando não fazer barulho, e colocou a cabeça para fora. Olhou para todos os lados do corredor, verificando que estava completamente vazio, antes de sair e fechar a porta.

Ainda detestando o rangido dos sapatos, tomou o rumo da biblioteca, tendo o cuidado em cada esquina de verificar se os corredores estavam vazios. A maioria dos criados passaria direto por ela, mas alguns correriam para seu pai, para a madrasta ou para o professor, querendo cair em suas boas graças, além do risco de ser pega por alguma dama de companhia de sua madrasta ou, ainda, algum mensageiro do Imperador que a conhecesse e estivesse trazendo notícias sobre a passagem do exército de Napoleão. Era uma possibilidade remota, mas existia.

Na metade do caminho, a pequena parou e tentou decidir por aonde iria a partir dali. O caminho mais rápido passava em frente ao escritório do pai, mas o mais longo pelos aposentos privativos do professor de música, onde ambos provavelmente estavam.

Com um passo decidido, escolheu o mais rápido. Ao menos, podia tentar chantagem emocional com o pai caso ele a encontrasse.

Observou, de longe, a porta do escritório do pai, por alguns minutos. O corredor estava quieto, e com sorte continuaria assim até ela sumir na próxima esquina. Respirando fundo para tomar coragem, começou a caminhar o mais rápido que podia. Mas quando passava em frente à madeira, percebeu que a porta estava entreaberta, com os sons das vozes de seu pai e de outros a alcançando.

Mordeu o lábio e parou de andar, olhando ao redor, a curiosidade picando-a como mosquitos ansiosos por sangue. Rendeu-se ao sentimento e se encolheu perto da abertura, se concentrando para conseguir identificar o que era dito.

- Majestade... O que fará? O mensageiro disse que Napoleão está prestes a alcançar Smolensk, isso se já não alcançou...

Houve silêncio, em que ela distinguiu o som de papel sendo remexido e de um tinteiro sendo aberto. Pouco depois, a voz de seu pai, o Imperador da Rússia e Czar, Alexandre I, se fez ouvir.

- Estava esperando que as tempestades já tivessem chegado... - ouviu um suspiro conformado - Não devia ter enviado Pyotr. A antipatia dele pelo marechal-de-campo Mikhail nubla o bom juízo dele.

- O que está feito, está feito, Majestade.

- Sei disso, Mikhail. - Anya franziu as sobrancelhas. Para seu pai estar dando ouvidos ao príncipe Mikhail Kutuzov, alguém de quem ela sabia que ele desgostava, a guerra contra Napoleão estava longe de ir como seu pai esperava. - Mas não deixo de me preocupar. Ao que tudo indica, o inverno vai demorar esse ano... Sem a neve para atrapalhar aquele francês idiota, vamos ter sérios problemas... - seu pai parou de falar por um instante. - Tome. Envie um mensageiro para Borodino. A cidade deve estar preparada caso Barclay e Bagration precisem se retirar.

Antologia: Clube de Autores de FantasiaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora