O peso sobre as costas

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Autora: Bruna K. Uehara



    - Desespero? Você acha que sabe o que é desespero? - gritou ela.

                  A voz dela ecoou pela sala subitamente silenciosa.

                  Grande Ursa nunca levantava a voz. Isso era sabido por todos que um dia pisaram naquela sala. Tudo subitamente cessou. Todos olharam para a pequena garota que ainda tentava manter a calma enquanto o mundo parecia ruir ao redor deles.

                  Sob os olhares atentos dos outros, ela encarou cada um daquela sala, praguejou baixo e continuou cavando e arrastando baldes cheios de terra por si só. As mãos sujas de barro e com terra sob as unhas não pareciam ser problema. Nem mesmo as pedras, ou o sangue que saia de suas mãos. Muito menos quando uma de suas unhas descolou e o sangue fluiu rápido. Apenas praguejou e continuou cavando.

                  - Suas mãos... - gaguejou o Pequeno Urso.

                  - Seu cérebro. - retrucou ela.

                  - Estou falando sério.

                  - E eu achando que era uma brincadeira. - riu ela. - Falar sobre coisas aleatórias que deveríamos estar usando.

                  - Reika... - era o nome real de Grande Ursa. Ninguém a chamava assim.

                  - Eu, pelo menos, estou usando. - continuou ela sem se incomodar.

                  - Pare.

                  Reika jogou mais um punhado de terra e olhou para o pequeno Urso. Usou o seu olhar perfurante que ele tentou manter, mas não por muito tempo.

                  - E o que você espera que eu faça? - perguntou ela, sua voz falha e fraca ecoando pelo salão silencioso e amedrontado.

                  - Eu...

                  - Você quer que eu pare? - cortou ela, como se ele não tivesse falado nada. - Você quer que eu desista?

                  Eles se encararam por mais alguns momentos. Ele parecia mais confiante em manter o olhar. Ela ainda aguardava sua resposta.

                  - Não adianta. - disse ele.

                  - Não diga. - murmurou ela. - Não continue.

                  - Vamos todos morrer.

                  Se encararam por um momento. Ela mordeu os lábios pensativa.

                  - Sim. - concordou ela movendo a cabeça e sorrindo. - Vamos todos morrer um dia. Não precisa ser agora.

                  Ela limpou a sujeira e o suor do rosto e manteve o sorriso.

                  - Você está com medo. - e ela riu. - Eu sei.

                  Continuou cavando, no começo lentamente e então aumentando o ritmo até voltar a velocidade com que cavava inicialmente.

                  - Você está preso, debaixo de umas duas, ou duzentas toneladas de terra. - e ela respirou fundo, recuperando o fôlego. - Sem entradas de ar. Ou comida estocada.

Antologia: Clube de Autores de FantasiaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora