Neutro

By -Tanchi

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Se meter com as pessoas erradas tem as suas consequências. Falyn Lake conheceu um rapaz. E tudo o que ela que... More

notas.
epígrafe.
um.
dois.
três.
quatro.
cinco.
seis.
sete.
oito.
dez.
onze.
doze.
treze.
catorze.
quinze.
dezasseis.
dezassete.
dezoito.
dezenove.
vinte.
vinte e um.
vinte e dois.
vinte e três.
vinte e quatro.
vinte e cinco.
vinte e seis.
vinte e sete.
vinte e oito.
vinte e nove.
trinta.
trinta e um.
trinta e dois.
trinta e três.
trinta e quatro.
trinta e cinco.
trinta e seis.
trinta e sete.
trinta e oito.
trinta e nove.
quarenta.
quarenta e um.
quarenta e dois.
quarenta e três.
quarenta e quatro.
quarenta e cinco.
quarenta e seis.
quarenta e sete.
quarenta e oito.
quarenta e nove.
cinquenta.
cinquenta e um.
cinquenta e dois.
cinquenta e três.
cinquenta e quatro.
Tem algum sobrevivente?
quarenta e cinco.

nove.

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By -Tanchi

Em momento algum, durante a
minha caminhada eu havia olhado para trás. Sabia que Sra. Rebeca não me havia seguido porque deveria estar ocupada demais imaginado mil e uma formas de fazer-me ajoelhar nos seus pés e pedir perdão pelo modo como a tratei. Esses pensamentos eram os únicos que ocupavam a minha mente enquanto andava — sem destino — pelas ruas de Ohio cabisbaixa.

Aquela mulher havia conseguido deixar-me sensível emocionalmente. Relembrar os piores momentos da minha vida davam-me vontade de arrancar o meu coração, para não sentir mais nada. Por isso, eu preferia agir como se eles não existissem ou fizessem parte dela.

Era engraçado pensar que um dia eu o idolatrava. Julgava que ele era o meu anjo da guarda. A pessoa que me protegeria dos perigos do mundo, que me ajudaria a andar de bicicleta, cantaria para mim antes de eu dormir e buscaria-me na escola todos os dias com um abraço e sorriso largo estampado no rosto, mas depois que a minha mãe morreu a nossa realidade virou outra. Ele transformou-se em instantes. De um pai presente e atencioso para um ausente e alcoólatra. Ele era uma parte ruim da minha vida, a que eu nunca teria o prazer de contar para ninguém

E a definição de família, acabou sendo destruída gradualmente a cada dia que passava até não sobrar nenhuma a que eu me agarrasse.

Por isso, quando diziam que um casal estava no orfanato para adotar crianças eu preferia esconder-me. Não queria uma nova família. E se eles fossem piores que o meu pai? Preferia ficar sozinha até o dia em que completasse dezoito anos e fosse embora daquele orfanato para construir a minha própria vida.

Quando virei uma esquina qualquer senti o meu corpo colidir com algo sólido  fazendo-me apertar os olhos com força. O barulho de algo se chocando no chão preencheu os meus ouvidos e antes de encarar a pessoa a minha frente curvei-me para apanhar materiais de pintura no chão. Desde pincéis e tintas de várias cores.

Depois de apanhar tudo e colocar de volta na sacola plástica levantei-me e encarei a pessoa que esbarrei parada a minha frente. Franzi o cenho quando os meus olhos passearam pelo seu rosto e alguns dos seus traços pareceram-me familiares.

— Eu acho que conheço você — murmurei ainda com as sobrancelhas unidas a encarar o seu perfil. Os seus cabelos castanhos escuros com uma tonalidade quase preta estavam escondidos atrás de um boné com uma sigla desconhecida por mim, mas isso não me impediu de reconhecer o rapaz arrogante do cemitério.

O seu rosto não estava inchado hoje e os seus olhos possuíam a sua cor natural, cinzento.

Esperei pelo momento que ele iria soltar um comentário rude sobre o nosso esbarro, mas ele não chegou. O rapaz ainda tinha a sua atenção voltada para mim, o que me deixou constrangida. Ele estava a encarar-me sem pudor algum, como se eu fosse uma rara obra de arte. E eu sabia que não o era por isso estiquei a mão onde segurava a sacola na sua direção para desviar a sua atenção de mim.

— Isso é teu.

Os seus olhos desceram até á minha mão e ele segurou na sacola plástica para em seguida arranjar o boné na sua cabeça.

— Eu também lembro-me de você — falou, casualmente. Como se não tivesse passado os últimos minutos me encarando.

— É, a primeira rejeição a gente nunca esquece — redargui, me referindo ao facto de eu ter tomado a iniciativa de tentar o ajudar e ele dispensar-me com atitudes grosseiras.

A sua boca se curvou num sorriso.

— Você não deveria se sentir na obrigação de ajudar todas as pessoas a sua volta — começou, com um pequeno sorriso. — Nem todos precisam de ajuda moral.

— Não se preocupe. Aprendi a lição — debochei.

— Acredito que sim. Sou um ótimo professor — devolveu no mesmo tom que o meu.

Troquei o peso dos meus pés, inconformada em dar razão a ele mesmo que de forma debochada.

— Mas eu só queria ajudar — encolhi os ombros. — O que tem de errado com isso?

— Muita coisa — respondeu, e em um tom estranho acrescentou. — Talvez a pessoa não mereça.

Estreitei os olhos na sua direção, desconfiada. Queria perguntar o que uma pessoa pode fazer de tão ruím até o ponto de não merecer nenhuma ajuda, mas tinha certeza de que ele não me responderia. Era óbvio que o garoto a minha frente não era um livro aberto e aquela resposta apenas escorregou de sua boca. Ele decididamente não queria ter dito aquilo. Percebi isso pela forma como um vinco se formou na sua testa, com certeza ele estava a se perguntar internamente porque me respondeu aquilo.

— Se a pessoa estiver arrependida, merece sim — falei e logo acrescentei. — De qualquer forma, cada um tem a sua maneira de pensar e eu respeito a sua.

Mesmo que pareça errada, acrescentei mentalmente.

Ele apenas me encarou de volta, de um jeito indecifrável.
Quando uma resposta não apareceu, cocei a garganta.

— Eu vou embora — chamei a sua atenção. — Foi um desprazer esbarrar em você.

Quando iria virar-me para continuar a minha caminhada uma gota de chuva caiu no meu nariz enviando uma eletricidade pelo meu corpo.

Não. Não. Não.

Os meus músculos começaram a ficar dormentes e o meu coração começou a bater num ritmo mais acelerado que o normal. Abracei o meu próprio corpo a tentar proteger-me da chuva que estava a começar a ganhar intensidade.

O rapaz se aproximou de mim e segurou nos meus ombros. Os seus lábios se mexiam, mas eu não era capaz de entender o que ele estava a tentar dizer-me.

Só conseguia pensar em como a chuva estava a ficar cada vez mais intensa e que em instantes me afogaria.

Esse pensamento foi o gatilho para lágrimas solitárias deslizarem pelo meu rosto. As minhas roupas estavam a começar a ficar encharcadas, mas eu não conseguia me mover. Os meus pés haviam ficado presos na calçada.

Fui tirada do transe quando o garoto segurou no meu pulso a puxar-me para um abraço de lado enquanto andava comigo até uma lanchonete que estava do outro lado da rua. Queria protestar e sair dos seus braços, mas a única coisa que conseguia fazer era tremer.

Assim que entramos no local o sino tocou, a anunciar a nossa entrada e alguns olhares curiosos se viraram para nós os dois. Tentei ignorar toda a atenção que havia recebido e continuei a andar ao lado do rapaz. Ele conduziu-nos até uma mesa solitária, afastadas de todas as outras e fez-me sentar numa cadeira para em seguida dar a volta e se sentar numa, a minha frente.

— Ei, você está bem? — perguntou genuinamente preocupado. Não o culpo, também ficaria preocupada se visse alguém a tremer e chorar debaixo da chuva.

Concordei com a cabeça e limpei as lágrimas no meu rosto a sentir a vergonha tomar conta de cada célula do meu corpo agora que estava protegida da chuva lá fora.

— Não queria assustar você. Desculpa — murmurei com o olhar preso na mesa que nos separava.

— Você não me assustou — começou. —  Só fiquei preocupado — tentou deixar claro. — Você não respondia as minhas perguntas, tremia e chorava… e eu não sabia o que fazer. Até que percebi que você só havia ficado daquele jeito depois da chuva. Por isso a trouxe para aqui.

Anuí de forma positiva, ainda sem olhar para ele. O constrangimento me impedia de levantar o rosto.

— Eu tenho pluviofobia — confessei, baixo.

Ele com certeza tinha uma expressão perdida estampada no rosto, por isso continuei.

— Medo de chuva — expliquei. — Começou quando fui para praia com os meus pais pela primeira vez. O céu estava nublado e eles disseram-me para não entrar na água porque não era seguro, mas eu era uma criança teimosa e fui mesmo assim. Estava tudo bem até começar a chover. Eu pensei que não fosse nada e que não me afetaria, mas ela tornou-se forte e eu quase afoguei-me porque não estava a conseguir voltar para superfície. Foi o pior dia da minha vida — o encarei, ele estava com os olhos presos em mim. — Até conhecer você e mostrar-me que podia ser pior que um trauma meu — brinquei, numa tentativa clara de mudar de assunto.

Sentia-me estranha. Não era de sair por aí falando a minha vida pessoal para desconhecidos, mas eu precisava dar uma explicação a ele.

Ele me ajudou. Isso significava alguma coisa.

— Ainda não sei como você se chama — comentei. Era um facto que eu sentia que deveria saber.

— Haden — respondeu. — E você?

— Falyn.

Ele concordou com a cabeça e um silêncio predominou entre nós dois. Uma empregada de mesa apareceu minutos depois para perguntar se não, queríamos algo. Haden perguntou se eu não queria alguma coisa e balancei a cabeça em negação. Eu havia comigo antes de sair do orfanato.

Olhei para o lado esquerdo onde tinha uma janela de vidro e vi que a chuva já havia parado. Eu queria voltar para o orfanato, mas não tinha dinheiro para um táxi e só de imaginar a caminhada que teria pela frente os meus músculos já reclamavam de dor.

— Eu posso levar você até a sua casa — Haden falou, como se lesse os meus pensamentos.

Fiquei incomodada quando ele mencionou a palavra casa.

— Eu não tenho casa.

— Em que boate vive? — repostou irónico e revirei os olhos. O imbecil não poderia ser agradável durante muito tempo.

— Uma boate chamada, orfanato. Conhece? — rebati e o sorriso no seu rosto se desfez.

— Droga, não sabia — resmungou. — Mas ainda quero levar você até lá.

— E, porque julga que eu deveria confiar em você?

— Como pensa em voltar? — ele diz, a ignorar a minha pergunta.

Não o respondi. Porque eu não sabia como iria voltar. A minha ideia era andar até o orfanato. Uma ideia nada inteligente, mas não tinha opção. E aceitar carona dele estava fora de cogitação. Eu ainda não o conhecia bem e o mesmo já havia deixado bem claro que era alguém para ser desconfiado.

— Não sei — admiti em voz baixa.

— Tudo bem, já percebi que não confia em mim e que nem que o mundo esteja a arder você irá aceitar a minha carona então deixa eu pagar um táxi para você.

Cocei a garganta.

— Porque se importa tanto, Haden?

— Não me importo, Falyn. Se não quiser, tudo certo — deu de ombros.

Ele parecia mesmo não se importar se eu aceitava ou não. E a sugestão era boa, mas eu sentia-me mal em pensar deixar ele pagar o táxi por mim.

Desviei o olhar do seu rosto, pensativa e a minha atenção ficou presa no braço dele. Havia uma tatuagem do que parecia ser uma aranha armadeira. Eu conhecia-a porque era um dos animais mais venenosos do mundo. O animal era feio, mas a tatuagem era bem desenhada e bonita.

— Você tem uma tatuagem — falei ainda a encarando. — Quantos anos você tem? — fiz outra pergunta.

Ele tirou os braços apoiados na mesa a tirar do campo de visão a tatuagem.

— Vinte e um — murmurou, mas alto o suficiente para eu ouvir.

— A sério? — o provoquei. — Pensei que tivesse quinze, sabe? Devido ao seu comportamento infantil.

— Há há.

Foi a única coisa que saiu dos seus lábios.

Que cara mal humorado.

— Você pinta? — a pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-lá quando finalmente prestei atenção na sacola estrategicamente posicionada na mesa.

Ele suspirou.

— Você costuma ser sempre tão intrometida?

— Não sou intrometida — neguei. — É só uma pergunta inofensiva. E a resposta é bem simples e curta.

— Não lhe interessa.

Arqueei as sobrancelhas.

— Sério?

— Não é uma resposta? — devolveu, indiferente.

— Esquece — revirei os olhos. —
Eu vou embora — levantei-me  da mesa. Apesar do seu comportamento rude sorri minimamente na sua direção e sem esperar por uma resposta saí da lanchonete sem olhar para trás.

Era teimosa o suficiente para recusar a sua ajuda. Preferia andar quilómetros do que aceitar carona ou dinheiro de Haden. Ele que se foda com a sua ajuda. Nunca precisei de ninguém para me virar sozinha e agora não seria a primeira vez. Só espero que não chova de novo.

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