19 - Acontecimentos inesperados

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— Irene! IRENE! Acorda, cacete! Irene!

Num rompante, Irene assumiu o controle do próprio corpo. Então enxergou tudo claramente: o céu azul, o caminho que desembocava na Floresta Flamejante, suas mãos que congelavam alguma coisa. Levantando os olhos, deparou-se com Toni, que tinha os braços congelados até a altura dos cotovelos. Ren estava atrás dele, gritando e xingando como se não houvesse amanhã.

Aparvalhada, sem entender como aquele cenário se desenvolvera, ela largou lentamente os dedos de Perna de Magia que, no instante seguinte, ajoelhou-se na terra, o rosto numa máscara de dor. Não se lembrava de ter voltado todo o caminho até ali. Aparentemente estivera lutando contra os irmãos, mas não recordava disso também.

— Ela voltou, Toni! Ela voltou! Ah, como estou contente por você ter razão...

— Eu estou mais do que você. Espero que ela saiba como descongelar magia...

Irene puxou na memória sua última lembrança e, subitamente, Elias explodiu em frente aos seus olhos, assim como o garoto Lenmenthe. No instante em que se recordou dele, começou a ouvir claramente sua voz, bem no centro da mente.

"Senhora Dragoa das Águas, você precisa passar para Perna de Magia e Ira dos Sons as informações que lhe contei, porque diz respeito à família deles. Eu já me esqueci do que se trata, pois transferi minha memória pra você. Se eu souber de qualquer coisa, tenho que contar ao 'mestre'. Mas Elias forçará você a se levantar contra eles, através de mim. Então preste atenção. Você não vai lutar até matá-los, pois ele os quer vivos. Então, quando você os derrotar ou for derrotada por eles, ou, com um pouco de sorte, conseguir escapar da prisão mental, você despertará totalmente, e se lembrará desta conversa."

As lembranças que Henrique obtivera da cabeça de Emon surgiram. Finalmente, ela soube onde, com quem e como ele estava. Informações vitais sobre a família de Perna de Magia ficaram claras, e uma frase contínua martelava-lhe a testa. "A senha é ProjetoNextMachina01. Pergunte à boneca de metal."

Irene sacudiu a cabeça e se voltou para os irmãos, pronta para contar o que agora sabia. Para seu horror, sua visão registrou um homem de cabelo grisalho voando em direção às costas de Ira dos Sons, um objeto em mãos. Um artefato elemental.

Antes que pudesse sequer formular o pensamento de que Elias iria pegar a irmã errada, ele já havia socado o artefato de fogo no meio da coluna da jovem.

Ren soltou um grito gutural, o objeto se fixando nas costas e lhe queimando a pele. Ao mesmo tempo, os outros três artefatos - água, terra e ar - começaram a flutuar e a circundá-la, prendendo-a numa espécie de campo de força. E então, como se estivesse sem forças, Ren caiu em torpor, os braços e pernas balançando moles, a cabeça pendente. Não desabou no chão apenas porque dentro do campo parecia haver total falta de gravidade.

Toni ergueu-se do chão como uma flecha e, mesmo com os membros congelados, correu para perto da irmã, para tentar libertá-la. Ao se aproximar, no entanto, o homem que a havia atacado, e o qual ele nunca vira na vida, surgira repentinamente à sua frente, descendo-lhe o braço no rosto. Toni voou para trás, a força do golpe balançando todos os ossos.

Caiu sentado no chão, próximo de Irene. O homem ficou à frente de Ren, bloqueando a passagem. Toni assustou-se quando Irene gritou com ele, numa voz imperiosa.

— Elias, pare agora mesmo! Essa garota não é quem você precisa!

O homem encarou-a, ligeiramente descrente.

— Como você poderia afirmar uma coisa dessas, Irene?

Ela adiantou-se para Toni, tocando seus braços congelados, fazendo a água voltar a seu estado líquido, assim livrando-os. Orientou que ele usasse a própria magia ao redor da pele, para aquecê-la. Nesse instante, o corpo de Ren começou a sofrer espasmos violentos, cada movimento atingindo a parede invisível de sua diminuta prisão, sem controle. Ao constatar aquilo, em terror, o rapaz da perna mágica correu mais uma vez para frente, sem se importar se iria ser impedido novamente. Só queria chegar até Ren, ela estava sofrendo, ele precisava fazer alguma coisa.

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